sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Fantasias para quando vier a chuva, de Samantha Abreu

Queridos, está aí o meu rebento!
Nasceu neste último dia, fechando 2010 com chave de ouro.
Em breve trago notícias sobre as datas das noites de lançamento. E eu adoraria receber todos os possíveis e impossíveis.

Fantasias para quando vier a chuva
Prefácio de Tavinho Paes
Apresentação e revisão de Beatriz Bajo

Para comprar:
o livro ainda não está no site da editora, por isso, caso você queira recebê-lo autografado, mande um e- mail para: sa.d.abreu@hotmail.com 
Preço: R$32,00 com frete incluso.

Samantha Abreu
Câmera na Chuva, parte do prefácio de Tavinho Paes.

"Samantha Abreu é uma câmera fotográfica de lente sensível que em todos os dias que Deus lhe dá sai pela cidade que ela conhece: sua poesia tem o tempo que anda naquelas ruas, faça sol ou... chuva!
Dizem as lendas dos que estão com o pé na cova e saudade do defunto que a tinta com que ela escreve seus poemas é feita com pingos de chuva. É por isso que faz divas surgirem de um lapso de memória como quem abre um guarda-chuva para quem tem medo de relâmpago e trovoada.
Ela chove poesia quando precisa de um banho. Tem aquela vírgula feminina que só quem tem XXX no DNA entende e avalia o quanto lhe custou cada verso escrito. Todos na base de talento e paixão, escrevendo com os pingos de chuva antes que caiam no chão.
(...)"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Parto, por Clara Arôxa


 O silêncio foi se arredondando, cheio de formas e cúmplices.
O silêncio foi se alastrando feito tinta em papéis em branco.
Afastou as fronteiras
Inocentou o tempo.
Abriu as pernas.
O silêncio preencheu de vazio das letras que mal cabiam
no espaço.
Eram imensas, duradouras.
Hoje, são incertezas ditas em tons de transparência.
O silêncio vestiu-se de homem. É ativo e transpira.
O silêncio é faminto.
Invade os poros.
O silêncio projeta-se no alheio, nas fotografias.
As ias, os ditongos, as rimas foram comidas por esse tal do silêncio.
Ele é covarde, franzina. Mal se sustenta nas pernas.
O silêncio tem asas cortadas e me recrimina.

Era uma vez o silêncio, meninas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

apenas sobre o nada, o tédio ou o amor (I)

essa sensação esquisita entre o estar e o não estar

sobre o ser e o que ser?

sobre o que está acerca e dentro

do peito

de todas as incertezas,

a única que me é certa é o amor

o que sinto

e não o que sentem

o que sinto quando estou só

o amor que sinto quando olho para ele

e muitas dessas vezes

ele nem me vê.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sobre todo amor que há nessa vida (I)

na expectativa de te rever

o corpo rosna como leão bravo

o pensamento voa

feito beija-flor

os sentidos nadam

tal qual cisanes enamorados

sob o luar.

o coração acelera feito o correr do tecido

pela máquina de costura.

eu troco as letras das palavras

não me concentro.

paro tudo. paro o mundo.

atravesso qualquer parede,

obstáculo, oceano

para ter teus olhos nos meus

para ter teus lábios

nos meus

-o sensível e ao mesmo tempo forte -

toque teu em mim

em minha pele que formiga

tal qual menina sassarica na porta da escola.

sinto teu corpo deslizar pelo meu

sinto teu escorregar

-para dentro-


de mim

te beijo e meu desejo relaxa.

relaxo toda. relaxo inteira. fico mole. maria-mole em teus braços.

sou tua boneca,

-tal qual minha entrega-

teu brinquedo, teu sossego ...

o voo desengonçado de um morcego.

estou em teus braços, boca e olhos

nas tuas mãos estou sua

e relaxo.

adormeço devagar sentindo cheiro de vida no ar

adormeço em teu abraço

-me desconheço-

dormimos juntos mais uma de tantas

e tantas outras noites.

respiramos e sonhamos

juntos

até o cantar do galo, o latir dos cachorros,

o cheiro inconfundível de café que chega da casa ao lado.

estamos juntos e somos um só sopro de vida

amanhece. recomeço.

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* Queridas meninas, obrigada pela homenagem no dia do meu aniversário. Amo vcs! Ju

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Feliz aniversário

A Ju, toda forma de poesia.

Um brinde!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Me chame de Ismael, por Janaina Lisboa

Oito anos. Lembro de muita coisa dessa idade, embora boa parte das lembranças sejam confusas. Entretanto, vejo nitidamente Tia Alice, a professora da terceira série, no dia que ela chegou na sala com um brilho nos olhos que só poderia ser de insensatez e decidiu nos seduzir intelectualmente com o que poderia ser o nosso primeiro insight filosófico.

- Não pensem numa baleia branca! – ela disse.

Depois de uma pausa de suspense, ela retomou:

- Vocês não conseguiram, não é mesmo? Todos vocês pensaram em uma baleia branca, não pensaram?

Ela estava certa, aquela escrota. Primeiro, ela zombou de mim por ter escrito ameixa com ch e agora ela me vem com essa de leitura de pensamentos coletivos. Sim, porque o Walter, Christian, Andressa, todos eles viram a tal da baleia branca na hora. Mas, eu, eu ainda estava intrigada com a porra da baleia na hora do almoço, do jantar, antes de dormir, na semana seguinte, nos meses que sucederam, até eu notar que ao dobrar a minha perna, o formato do meu joelho, batata da perna, tornozelo e pé formavam uma cachalote branca, já que eu tenho sinal no lugar exato de um olho.

Era isso. A baleia que eu caçava em minhas ondas de sinapses cerebrais, havia me pegado e agora estava para sempre em mim, na minha perna esquerda.

My own Moby fuckin’ Dick.

Persegui tanto a baleia que ela acabou virando parte de mim.

Nos anos que seguiram, a baleia ganhou companhia de um cardume de pensamentos complexos, quais acredito que alguns especialistas chamariam de “fixações obsessivo-compulsivas”.

Submergia-me em um mar de preocupações e quase fui engolida pelo redemoinho chamado hipocondria. Preocupava-me em contrair doenças – especialmente as que não têm sintomas aparentes – onde a minha falta de reclamações e de dores físicas era exatamente o que positivaria a enfermidade, a severidade do meu caso e a minha morte eminente e próxima. A moléstia me mataria sorrateiramente. Eu não a veria, assim como ninguém mais vê a baleia branca na minha perna que, não sei por que, insisto em mostrar.

Nutri uma nada saudável curiosidade sobre doenças. Afinal, não permitiria que qualquer patologia de merda vencesse o meu intelecto. Onde houvesse uma baleia branca eu iria enxergar. Mas, oh, sim, lembrei de um detalhe, como poderia ver bem essa baleia se sou míope? Temi ficar cega, daí pensei que era melhor, então, ler sobre tudo o mais rápido possível. Descobri que miopia não cegava e que havia uma grande possibilidade de existir no mundo uma pessoa igualzinha a mim.

Preocupei-me com a garota idêntica. E se eu fosse a Rutinha? E SE EU FOSSE A RUTINHA? Isso só poderia significar que A Raquel em potencial, seria capaz de matar alguém, me mandar para prisão em seu lugar, onde ela seria tão odiada, que as minhas parceiras de cela jogariam ácido na minha cara para se vingar dela não importando o quão legal eu fosse.

A sucessão dos fatos da repentina morte de um primo, final de um longo namoro aliados a presença persistente da baleia branca, minha constante morte eminente, e a perseguição do pensamento que poderia ir para prisão por algo que a minha suposta gêmea má ainda iria fazer, e lá ficar desfigurada (não sem antes ser estuprada por uma gang de lésbicas) me fizeram procurar uma psicóloga, quem fez a chocante revelação que eu não estava completamente maluca. O que eu deveria era falar. Falar para desmistificar os problemas e escrever. Escrever para fazer sólidos os meus monstros e ver que não há nada tão assustador assim. Referente à baleia ela disse que eu poderia continuar vendo-a em todos os lugares, o truque era não me importar com isso.

Espetacular.

Com exceção do fato que eu não acreditei em uma palavra sequer que essa louca disse e passei a ler além de doenças raras tudo sobre transtornos mentais. Afinal, entremos em meu cérebro um segundinho:

BALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCAEBOLAEBOLAEBOLABALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCASEXOSEXOSEXOBALEIABRANCABALEIABRANCABALEIABRANCAPRISÃOSEMOMENORSENTIDO.

Obrigada, Tia Alice.

Vinte e oito anos. Lembro de muita coisa dessa idade, embora boa parte das lembranças sejam confusas devido à ingestão de álcool. Entretanto, vejo-me nitidamente deitada do lado dele, trocando carícias, num desses momentos que você quer fazer um cartão postal para se lembrar para sempre que aconteça o que acontecer, naquele momento você estava feliz, quando resolvo fazer algo completamente insano. Pois, insanidade é a ciência de que você vai fazer algo completamente idiota, mas, de alguma forma, você simplesmente não pode evitar.

- Eu tenho uma baleia na branca na perna que ninguém consegue enxergar, quer ver?

- Como não conseguem enxergar?! Óbvio que isso é uma baleia branca!


Isso só poderia significar duas coisas: ou ele é o amor da minha vida, ou tem o mesmo parasita cerebral.

domingo, 23 de maio de 2010

Entre elas: André Souza

SOBRE O SILÊNCIO
...
(uma estória gelada)

Olá, tudo bem? Então, quer tomar um suco, uma cerveja, um vinho? Podemos não tomar nada. Aliás, eu quero tomar um gim, mas não precisa me acompanhar. Faz frio, né? Sim, o inverno se aproxima, mas, tá tudo tão diferente, pensei que a temperatura não fosse mudar tanto. É, eu sei, ainda que não venha no tempo certo, o frio sempre vem.

Também estou sem pressa, quero falar um pouco sobre a vida, sobre as alegrias da vida ou das pausas que essa alegria dá na vida. É, eu podia te mandar um e-mail, ligar, mas caminhar a noite pela cidade traz mais inspiração.

Acho que é o mistério que a noite traz, ás vezes não vemos com clareza o rosto dos outros e estão tão todos sempre muito cobertos por casacos e cachecóis, medimos sua alegria pela largura do sorriso e o brilho que brota dos olhos.

Na verdade eu não tenho nada muito importante para dizer a você. São os problemas que se repetem como num ciclo vicioso de desencontro com nós mesmos e, ligeiros encontros com os outros e mais outros e outros. Ás vezes sinto sua falta. Às vezes esqueço que você existe; ás vezes só existo quando me vejo em você.

Meu sorriso reflete no seu sorriso, minha alegria se confunde com sua alegria, mas, não é sobre isso que eu quero falar. Eu queria que sorrisse pra mim. Não! Não esse sorriso sem cor, aquele sorriso que faz seus olhos se fecharem um pouco é, mais ou menos assim. Eu tô bem, esteja bem. Eu? Não! Eu não conseguiria, tá meio oco aqui dentro, acho que a minha emoção foi passear em outro lugar, acho que resolveu me deixar um pouco só pra saber ao certo como lidar com tudo isso.

Você nunca soube, talvez eu nunca tenha conseguido explicar, sempre achei que, o que fazia sentido tinha que ser sentido, não precisava ser narrado nem tão pouco explicado, mas não deu muito certo. Pode até me acusar, me chamar de bobo, imaturo, mas, medo eu nunca tive, apesar de todo nervosismo e falta de palavras.. Quando te abracei, quando te beijei, eu estava lá inteiro, estava completo; estava contigo de pensamento e desejo. Não, você entendeu tudo errado, não quero te ter, te possuir ou ser teu dono. Não sou dono nem de mim. Sou dono dos meus momentos e dos meus encontros, não me encerro em mim e vou me espalhando, pois me multiplico e vivo.

Me conta um segredo? Já contou isso pra alguém? Como é isso pra você? É, tem coisas que são confusas mesmo. Não eu não me importo, nunca vivi uma situação parecida, mas não me importo com isso. Um segredo meu? Ah é um jogo? é uma curiosidade? Peraí me deixa pensar...Eu uma vez joguei uma pedra pra cima e fiquei olhando, quase fui pro hospital. Ei, tá rindo do que? Eu sei que não é um grande segredo, mas quem é que sai contado por ai que faz uma coisa besta assim? Outro? Então tá: Eu amo você.

silêncio.

ainda aí?

Calma, não precisa falar besteira, não estou te pedindo que me ame. Você quer me contar outro segredo? Vamos ficar a noite toda conversando sobre nossos segredos? Só mais um, certo? Porque não me disse isso antes? Eu não ainda não sei ser diferente, não era essa minha intenção, só não posso te pedir desculpas porque fiz sem culpas, fiz porque quis, porque desejei. É, eu não pensei em você, talvez seja esse um dos meus grandes problemas, mas o tempo cuidará disso pra gente.

Agora faz mais frio do que antes. Você quer que eu diga o que fazer com o amor que eu sinto por você? Não! não é uma decisão minha, não sou eu quem escolhe. Eu sei o que sinto e onde guardo. Não fique preocupada com isso. Você tem tantas outras histórias, tantos outros desejos.

Não, eu não sou tão legal assim, mas o que é que quer que eu faça? Que eu chore, grite, me jogue aos seus pés e peça que volte e que fique? Por quanto tempo? Uma hora, um mês, dois minutos? Não, não! Seu pouco não me interessa nem um pouco, o que eu quero não é a compaixão. Minha parte eu quero em tesão e, se não puder me dar, que fique tudo bem. Que fique tranquila. Ei, não diga o que não sente e que não fique com meias palavras como eu. De tudo eu posso suportar, menos as palavras ditas assim.

É, eu prefiro seu silêncio. Aliás, o silêncio sempre é a melhor resposta. Ele não nos compromete, nos deixa lá em cima do muro sem ação observando o movimento natural das coisas.

Eu preciso ir. Sim, a gente se fala, a gente sempre se fala, não é? Quer me dizer alguma coisa?

Mais silêncio.

entendo.

Vem cá, me dá um abraço?

Não, não quero seu beijo hoje, é só um abraço.

Você tem sempre razão. Você me dá um cigarro?

O tempo já correu demais.

Sinto que esta madrugada será bem fria.


André Souza tem 22 anos, é compositor, saxofonista e caprocorniano.O resto são segredos que se trazuzem em olhares, gestos e meias palavras.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Caio F.

"Eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, eu pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?"

Entende?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

longe é um lugar que insiste, por Juliana Hollanda

você foi meu grande amor e nós funcionavamos perfeitamente juntos. eramos opostos exatos e brigávamos sempre, mas você me fazia intensamente feliz e vice-versa. eu sei que mereci seus pedidos de abraços ao amanhecer...

nós não duramos muito. eu comecei a querer te controlar e você pulou fora levando contigo; meu coração.

passei meses e meses tentando me recompor. tentando desesperadamente me recompor. primeiramente, me apaixonar por você me deu uma sensação de afogamento, mas a água estava tão morna e agradável que parecia que eu estava mergulhando em uma banheira de mel, mas você se foi e essa água ficou gelada e meus pulmões entraram em colapso.

eu parei de respirar e enquanto me afogava, eu estava lutando, chutando, e mesmo assim, não conseguia chegar ao topo, porque meu coração estava morto. meus braços estavam congelados e não tenho idéia de como cheguei à superfície, mas eu cheguei e a primeira respiração foi tão dolorosa, e a segunda e a terceira. eu consegui me secar, mas eu ainda estava tremendo.

depois eu me arrastei para fora da água e passei seis meses, tentando desesperadamente me puxar para cima, eu estava toda congelada.

embora você esteja do outro lado do mundo, você continua voltando para me torturar, manter-me enrolada. fazendo-me reviver esse processo de afogamento constantemente, você mergulha-me de volta para o calor com suas promessas de como você sente falta de mim, com suas mensagens bêbado dizendo se arrepender de tudo, me dizendo que você sabe como eu triste estou agora e está matando você , que você se arrepende me machucando e me deixando sozinha aqui, mas você acabou de me jogar de volta para o gelo, com suas reivindicações de que era um erro embriagado, e suas mensagens para outras meninas dizendo-lhes o quanto você sente falta delas, eu percebo que sou realmente nada para você.

eu percebo que não posso fingir que eu não quero dizer mais nada para você, a espera tem sido longa demais. não nos vemos há um ano e meio e você estará de volta em breve e eu não poderei vê-lo, porque eu vou estar de volta à estaca zero. você não pode continuar enroscando em mim. isso está acabando com você? o que você acha que tem feito comigo? você não pode continuar fazendo isso, você não pode ficar me esperando para se recuperar de cada vez que você martelou o parafuso com a cabeça.

sim, você me deixou sozinha. levantei-me, mas eu ainda estou sozinha e quando você estiver satisfeito com isso, você vai me deixar sozinha novamente e eu vou ter que sentar e juntar as peças, descongelar de novo e eu nem sei se tenho energia para fazê-lo neste momento. não posso continuar me afogando.