Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Estado (In)determinado, por Samantha Abreu

foto de katie lee
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O que sinto não é belo,
não me faz sorriso esticado,
não ilumina de sol.

O que penso não é agitado,
não tem pessoas bebendo,
não tem amigos à toa.

É como estar em uma caixa
encolhida,
sem espaço, ofegante.

Dizem que é amor,
mas eu acho que é
estar repleta
de solidão.
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A cabine telefônica, por Gabriele Fidalgo

Inadiavelmente, como todas aquelas coisas que ela ama independente, os sussurros do cigarro caem densos e vagarosos, unidos à garoa e ao tempo do inverno que assopra o vento. Pensa que sentir assim, nada em seu lugar, é ver o céu escurecer sem pressa, sem planos, sem gasolina no tanque do carro, ou beijo para espalhar sobre o rosto, porque é tarde, e a estrada continua, também independente. Esta é a ligação entre Elisa e as esquinas; o tempo não pára.
Dentro da cabine telefônica, o isqueiro no bolso do casaco, este é o dia para arriscar não ser acaso. O vidro começa a embaçar com tanta coisa acontecendo dentro de sua cabeça. E a coisa mais bonita é, simplesmente, acontecer. E acontece que, assim, meio devagar, a sensação de vida vai subindo pelas pernas, deixando arrepios em seus calcanhares. - 'Quem me quer assim?' - Ela sabe o que diz.
Beleza, para Elisa, é acender os olhos. Em tanta independência, tanto corte, risco e rabisco em suas lembranças, confortar com intensidade é abrir também os pulsos. Como tudo.
No telefone os números discados continuam mudos. Emudecidos são os faróis dessa cidade torta. Sim, calados, sinceros, misteriosos. É feriado, as calçadas passam sozinhas, os estacionamentos estão estacionados sem chegada e saída. Os cinemas parecem vazios. Ou será que é ela que enxerga para dentro, por dentro da cabine e do isqueiro guardado?
Ela acontece continuamente. Coloca o telefone público no gancho, move os passos.
Irremediavelmente Elisa desfila através das gotas, cinzas e inverno. O que a acalma é seu peito aberto, suas entranhas anunciadas. Vai andando, sabe que chega.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A Casa Sua, por Samantha Abreu e Paulo Castro

texto de Samantha Abreu e Paulo Castro
leitura: Paulo Castro
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Domingo, 21 de Junho de 2009

Quando..., por Juliana Hollanda


... morrer for apenas fechar os olhos, quero morrer.
... te ter for apenas sorrir; quero nunca mais fechar a boca.
... chorar for irrigar o solo com sal; quero fazer um rio de lágrimas perdidas.
... amar for apenas entrega; quero te abraçar pra sempre.
... viver for fácil assim...
Avise-me!

Sábado, 20 de Junho de 2009



Bienal do Livro na Bahia 2009
Praça de Cordel e Poesia - Martha Galrão

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

1 2, por Lais Mouriê


Doze era um número cabalístico para ela. Todas as coisas boas (e também não tão boas assim) estavam intrincadas a esse número duplo e singular. 1 e 2, única e dupla, solitária e acompanhada. Aos doze anos menstruou. Não tinha corpo de mocinha, mas tinha doze pintas espalhadas pelo peito. Ao meio dia de uma segunda qualquer, deu seu primeiro beijo.Era dia doze de abril quando o conheceu. Doze vezes se encontraram até que ele sumisse, para os arredores alcoólicos do mundo (levava doze garrafas de rum). Comprou um apartamento aos 21 anos. Parcelou de 12 vezes. Foi pra lá que levou seus doze casos sem solução. Chorou doze vezes por cada um deles. Mas, como tudo na vida passa, para ela, passaram-se 12 estações de metrô até que ela o reencontrasse abraçado a uma vagabunda. Naquele momento, ela decidiu-se ser duas em uma. Anda sozinha desde então, acompanhada por doze estrelas cadentes.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Me and Myself, por Samantha Abreu

foto de Ellen von Unwerth
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Porque ele a convenceu de que era louca, ela resolveu procurar a tal clínica.
É bonito esse lugar, bem tranquilo e, mesmo que eu não tenha problema algum, aliás, penso que deve ser história desse povo desocupado, posso fazer de conta que tô em férias. Aquele emprego tá mesmo me matando, tô cheia de relatórios pra fazer. Será que vai demorar muito essa consulta? Moça, dá pra ver se o doutor me atende com prioridade, por favor? Se ela soubesse como ando cheia de coisas. A casa tá uma bagunça e ainda tenho que passar pra comprar o vaso que aquele palhaço quebrou. Nossa! Agora lembrei que ele ainda nem tirou tudo lá de casa, e se ele for lá agora à tarde? Vou ligar pra Arlete, ela que deixe entrar, pra ver uma coisa. Ah, não me tira do sério, gente! Tô aqui nessa clínica não é à toa. Arlete, o Chico passou por aí? Olha, não deixe ele entrar, hein, Arlete! Eu não autorizo. Ai, meu Deus! Quanto tempo será que ainda vai levar isso aqui? Nossa, que vaso seco, será que não tem uma mulher capaz de jogar água nessa planta, gente? Já são duas horas e eu vou atrasar no almoço de novo. Depois, quando volto, aquele boçal fica pedindo satisfações. Eu mereço. Quando chegar, preciso ligar pra Cristina e marcar meu horário, esse cabelo tá vergonhoso, pelo amor de Deus, ninguém mais dá jeito nisso. Oi, moça, será que o doutor demora? Tô com o horário apertado. Vê isso pra mim? Obrigada! Detesto ter que sorrir quando tô com raiva, fica essa boca congelada aqui, será que a pessoa percebe? Deve ser muito feio. Eu nunca percebi ninguém se obrigando a sorrir pra mim, sempre me fazem cara feia. Não ligo, não vim ao mundo a passeio. Boa tarde, doutor, como vai? Posso sentar? Eu não estou muito bem não. Veja, ando conversando demais comigo mesma. Às vezes, até esqueço que o mundo é cheio de gente. E sabe o que é pior? Eu me faço perguntas e eu mesma me respondo. Não consigo tomar uma decisão sequer sem me consultar antes. Ficamos horas em discussão, eu e eu mesma. Não tá dando mais. É isso, vou dizer bem assim pra ele, vai parecer mais claro, senão, como vou explicar essa maldita conversa? Posso dizer que falo sozinha! Mas eu não falo sozinha, ninguém escuta o que tô pensando! É claro, né Clarice, se você está falando sozinha, ninguém precisa escutar. Ah, que saco ter que explicar uma coisa dessas. Já sei, vou embora. Não, não vou mesmo, agora já estou aqui. Mas está demorando e prometo não discutir mais se você ceder em algumas coisas. Em quê, por exemplo? Quero fazer amor de quatro. E eu com isso? Pode fazer. Ah, mas como faço à vontade se você não pára de me chamar de vaca? Não consigo me sentir bem dando de quatro com alguém me chamando de vaca. É, sei bem, mas quando ele te chama de cachorra você gosta. E daí, cada um na sua. Pois então, como ficamos? Se formos embora você me deixa em paz na hora H? Mas eu vou querer uma coisa também: chupar sorvete todo dia. Ah, nem a pau! Aí eu engordo! E você acha que é só a sua bunda que dói naquela hora?
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Domingo, 14 de Junho de 2009

Sobre esquecimento, por Juliana Hollanda

eu me esqueci de ti.

esqueci do amor que um dia me alimentou e me fez buscar em cada rosto, em cada pessoa anônima nos bares, nos teatros, nas livrarias, nos cinemas
- a ti -
e somente a ti.

esse amor que outrora se transmutou em ódio ferrenho e hoje não passa de descaso.
sim, eu te odiei e ao te odiar eu te amava ainda e mais do que antes.

odiava-te a ponto de insuflar de cólera meu peito com uma simples referência ao teu nome, com um fato qualquer que me remetesse ao que vivemos um dia lado a lado
-tu do teu lado-
e eu
tentando acompanhar-te
fazendo de mim algo
que não era
eu.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Da Arte Feminina de (não) Ser, por Samantha Abreu

foto de lauren bentley
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Não, não há somente beleza em ser mulher. Às vezes dói.
Mutilamos as cutículas das unhas, colamos as dos cabelos,
descolorimos uns fios, botamos tinta noutros,
tiramos o espartilho, mas assumimos a responsabilidade de continuarmos apertadas
sem a ajuda dele.
Clareamos os dentes, escurecemos a pele. Artificialmente.
Engrossamos a alma, afinamos os calcanhares,
lavamos o suor do rosto para o lambuzarmos de base.
Arrancamos os pêlos. Peruca pra quando eles não nascem.
Fortalecemos a individualidade, enfraquecemos os laços.
Cada vez mais.

Não, não há certeza presente no rosa. É desigual.
Aumentamos a fome: de doce, de amor ou de vida,
mas comemos menos de todos eles.
Desejamos um filho, desistimos de tê-lo,
afogamos a fraqueza do medo e choramos cada vez mais em romances.
Deixamos de fazer romance.
Procuramos ser mil, ofendemo-nos por não sermos únicas,
atraímo-nos pela efemeridade, magoamo-nos pela falta de raiz,
rivalizamo-nos na guerra, amparamo-nos da deserção.
Esquivamo-nos de ser o que somos.

Dissimulamos, depilamos, colorimos.
Engolimos o salgado das lágrimas
e saboreamos a doçura dos sorrisos.
Pra dias de sangue, absorvemos e
disfarçamos.
Um jogo pra qualquer cintura.

Não é belo nem certo.
Mas é artístico.
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