quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sem medo da chuva, por Lais Mouriê




O relógio eletrônico da esquina marcava dezessete horas, em ponto. Entrou em sua padaria preferida. Um desejo súbito por café expresso a tomou de imediato. Talvez seria o desejo constante de aquecer-se em dias de chuva e frio. Sentou-se, completamente encharcada, num dos bancos da cafeteria, que durante aquela chuva estava agradavelmente vazia, não fosse a presença incipiente do garçon. Caterina pediu um café expresso. "Um expresso? É pra já. Mas me diz, o que faz na rua durante uma chuva dessas, moça? E ainda por cima toda molhada assim? Você poderá pegar uma gripe ou um resfriado. Não tem medo?" Sim, tinha medo. Não de resfriados e espirros, gripes e dores de cabeça. Tinha medo de que não conseguisse mais ter medo, depois que conhecera aquele homem numa esquina movimentada de São Paulo. Tinha medo de começar a penetrar no absurdo, sem o medo que a fizesse recuar. Tinha medo de que a falta de medo fosse a negação da vida. Afinal, a sua vida fora a própria representação do medo. O seu medo já não era mais medo; era a certeza de que, desde aquele momento, perdera a capacidade de fingir. E isso era o fim. "Não, não tenho medo. E por favor, açúcar, e não adoçante!"






Imagem: encontrada no google

19 comentários:

Fabrício Fortes disse...

muito bom!
nada de laranjas ou aspirina efervescente..
"medo de começar a penetrar no absurdo".. isso me pegou

Paulo Castro disse...

Essa história é imensa. É longa. É um livro.
Mas qual a marca do artista, da artista? Saber condensar em poucas linhas. É uma das marcas. Vc tem essa tatuagem. O que se ganha nisso? O espaço imaginário do leitor? "Que homem?", "Que absurdo?","Medo antes de que?".
O garçon preocupado é uma pista de absurdo. Nenhum garçon se preocupa com resfriados. Eles apenas servem. Esse é um garçon onírico. Ela já está dentro do labirinto. E como terminar esse texto que é abismal ?( E não se vendeu fácil, como "aquele homem na rua, pelo qual me apaixonei", nada de bobagem, pode ser um homem cego, um homem que imitava uma galinha, mesmo um homem morto que todos pisavam em cima...) Como encerrar o texto-abismo, o texto sonho-expresso ?
Com a delicadeza da ironia.
Com açúcar.
Com a doçura. No meu caso para com vc, meu caso de leitor, eu diria Chico: Com açúcar e com afeto...
Beijos.
°

jupyhollanda disse...

Lá,

Realmente poucas linhas que dizem tudo. que falam de medo querendo dizer amor. de "fingimento" querendo dizer "sou assim mesmo e daí?"... o final; PERFEITO!

açucar e não adoçante é poético demais... e todas nós gostaríamos de dizer isso sem medo!

Parabéns!

Bjo

Ju

Bubices disse...

Lais.

Tão lindo. Tão Clarice.Tão Lais.
Parabéns.

Paulo DAuria disse...

"Medo de que a falta de medo fosse a negação da vida"
Aprendemos a viver assim, quantas mães, psicanalistas, amigos já não nos disseram, "vai com calma, o medo é bom, impede a gente de fazer grandes loucuras"
Mas de que sever não fazermos "grandes loucuras" se nos impede também de viver?
É isso, comecemos a viver agora, sem medo! Comecemos com as pequenas loucuras: açúcar!

Beijos

Salve Jorge disse...

Medo
Tão cedo?
Engano ledo...

"Eu perdi o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra trás coisas do ar
Aprendi o segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar..."

SAMANTHA ABREU disse...

Lindoooo!
ando com esses medos de perder definitivamente o medo.
Medo talvez seja a grande chave inversa da loucura:

Medo Off x Loucura On
Medo On x Loucura Off

hahahaa
beijos, Lá!

Gabriele Fidalgo disse...

Ah Lais,
dá até para imaginar a mulher da história entrando na padaria com um olhar determinado. Certa de que algo decisivo aonteceu com ela. Adoro descrições assim, e adorei essa sua.
A frase final é perfeita, mas acho que deveria ter uma continuação. [parece trecho de um romance, viu? rs]

Como sempre, mais um texto intenso!

Amei. =]
beijos

Oliver Pickwick disse...

Acabei de postar um comentário lá, do lado de lá.
Agora, me surpreendo de novo com esse mini-conto com conteúdo capaz de rechear um Guerra e Paz inteiro.
Olá, meninas! Para que não fique parecendo que tenho preferência pela Laís, gostaria de afirmar que, li todos os posts do dia 24 para cá. Os anteriores, eu já havia lido em outra oportunidade, bem entendido? Por sinal, todos ótimos.
Mulheres... a agente tem de ficar, sempre, explicando tudo tintin por tintin.
É sempre um prazer visitar esse blog, a maior concentração de neurônios femininos, charmosos e inteligentes da blogosfera. Acho que vocês aplicam feromônios em spray por aqui, não é?
Um beijo, e tenham a melhor das semanas!

Vânia Beatriz disse...

Hmmm interessante!
"... medo de que não conseguisse mais ter medo"

É o que aconteece quando temos nossas almas "desnudas".

(Comunidade "Prazeres Amelie", prazer! =)

Cin disse...

"Tinha medo de começar a penetrar no absurdo, sem o medo que a fizesse recuar."
Isso me soou tão familiar...
Bjos minha escritora preferida!

Jéssica V. Amâncio disse...

Parabéns Laís!Adorei!
As 4 frases finais são de tirar o fôlego.
Vou voltar mais vezes para comentar nos textos das outras autoras!
;)
Beijos

disse...

Eu queria o endereço dessa fonte em que vcs bebem... Lindo, Laís, lindo demais.

Meninas, tem presente pra vcs lá no meu blog. Dêem um pulinho lá. ;)

Paulo Bono disse...

Até porque não sentir medo é coisa de Jedi.

abraço

KIMDAMAGNA disse...

NZUMBI!

Eu também me culpo, rastejando,
volvendo animal de combate,
subo incansável em direcção à indiscrição, o rio inclinado
resiste me intenções.
Na asa do flamingo
voamos roseando impurezas,
sda multidão nos distinguimos.

Kimangola

Bianca Feijó disse...

Sempre haverá medo entre os seres humanos,pois faz parte de nossa existência.
Lindo texto,enxuto e ao mesmo tempo nos faz viajar na imaginação de todo o cenário.
Beijos!

Lunna Montez'zinny disse...

O medo enferruja disseram-me certa vez e eu nunca percebi. Lendo o seu texto fiquei com a sensação de que o medo projete ao invés de enferrujar.
Gostei do cenário e da possibilidade.

Claudia Lis disse...

Lala,

Gostei muitão mesmo desse texto! Por ser um conto (amo) e por falar sobre medo (odeio). Não gosto de falar de medos por isso, dessa vez, não vou falar nada (sobre medos), só vou ouvir (o que você tem a dizer).

De qualquer forma faço questão de registrar que adorei o texto. Foi mais um conceito sobre medo, que acabei de aprender.

Muito bom!

Marcos Satoru Kawanami disse...

são paulo?