sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Carta ao Ilusionista, por Syssy Virtuale

Foto: Delusions I; por Chris Saxe - 1994

Minha luz se plasma em sopro de ilusão. Construí nosso castelo em fragmentos
de pureza
..................{melhor confesso, em carência}.
..........................................................................Órfã, não sei ser mais audaz.
Como mais uma fabricante de vôos líricos, agarrei-me ao sonho de mais um herói que desenhei.
Difere mesmo? Encara mesmo sossegar minha agonia?
Em um nimbo de uma infância ambígua, era de mãos atadas e lábios costurados que se provava amor em chicotadas até convulsionar ao estado sombra. Fui adestrada assim. Minha sina assassina era a de servidão àquela covardia.
Mas a salvação se encontra na releitura diária de uma criança abusada.

Com o tempo, compreendí melhor o que o estóico Zenão disse: "caráter é sintese."
Seguro-me a isto em meu reflexo diário. Todas as ações que partem de mim, rompem novamente esta carcaça em vórtices cíclicos, e não aceito a condição. É bem no meio do peito que giro a minha navalha.
Ass: Laverne

9 comentários:

Paulo Bono disse...

extremamente cortante, Syssy.
muito bom.

grande abraço

SAMANTHA ABREU disse...

Syssy...

"e não aceito a condição..."

eu tenho uma navavalha no peito. Mas no meu. E, às vezes, eu giro. mas dói em mim.
Lindo seu texto, gatona!

um beijo!

Paulo Castro disse...

É uma questão de caráter, ou seja, uma questão de moral que se coloca no escrito.
O que será o caráter da poeta?
A sua moral ?
Roland Barthes, no "Neutro", um dos seus últimos cursos: Diz, afirma e comprova que o que é irreal é imoral. Pense bem e vc chega nisso. Veja, passe pelo lance "ilusão", fica fácil sacar. Mas a vida da poeta é a mesma de Calderon: Vida é sonho.
Existe todo um contorcionismo para que o/a eu-lírico aceite uma outra imagem de si, ou do outro, de um outro. De forma moral. COM CARÁTER. Mas aí vem a coisa. Poeta recebe esse dom e essa condenção. Poeta é livre, poeta não tem caráter.
Me mostre um poeta de caráter e será um daqueles de gabinite.
Os Manuéis Bandeirinhas da vida.
Não há motivo pra contorção dolorosa. A imoralidade é inerente à condição tratada. É sua "síntese". Dói, mas entre um jogo e outro, uma vilania e um heroísmo, a gente acaba se acostumando. Atingimos o ponto máximo de poesia de que fala o mesmo Barthes, da não dicotomia moral: O Neutro. ( vide isso no Tao).
Enfim, longo papo.
Bjs.
°

KIMDAMAGNA disse...

" ... fui adestrada assim..."

" ... em vórtices ´ciclicos..."

daí ao mergulho no outro lado da Órfã ( A Audacidade ) é um leve sopro.
O espírito do Toda a Parte aqui presente.
Abraço

Jota disse...

Essa navalha girada lembra a face destrutiva de Dioniso: se você tenta suprimir seu desejo de liberdade ele volta espocando meio mundo, não tem quem segure.

Cortante.

Andreia Muza disse...

"releitura diária" vc é valente!
Lindo...
Bjo

Lais Mouriê disse...

"Minha sina assassina era a de servidão àquela covardia."

essa frase traduziu o meu dia com maestria!!!! Nem consigo exprimir o quanto!!!!!

Bjos, minha querida poupeezinha

Fabiano Merli disse...

Ai....
Isso dói...
Lindo.
Beijos.

Shan... disse...

cada dia mais lapidada... essa eh voce... mulher, poeta, intensa...

beijo gatuxca...