quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Pare, por Lais Mouriê




Pare! E eu sigo.



Persigo, desavisada, as luzes apagadas das estrelas. Eu ainda as vejo brilhar, enganada pelo verde preso à minha retina. Vozes prudentes sussuram gritos nos meus ouvidos. Dizem Pare! E eu ouço Siga!



Amparo-me nas mãos ausentes, que ainda me puxam para baixo, e sinto-me flutuar. Sempre em direção às estrelas que refletem o breu dos teus olhos. Sapatos perdidos, pés feridos e a impressão de que o sangue é o tapete vermelho que agracia meu caminho. Não há dor para me fazer parar. E eu sigo.



A fome é tanta que alimento-me de teus vazios. Sacio-me da tua fome insensata e inocente. Ligo refletores para não tropeçar nas pedras cuidadosamente deixadas por ti. Agradeço por dar-me a oportunidade do tropeço, necessário para o crescimento. Tu a esperar-me cair, mas eu sigo.



Aquelas placas dizendo Pare! são para mim? Ignoro. Vejo tantas esperanças naqueles nãos ditos sem delicadeza, que sorrio feito uma beata em momento de êxtase. Tu, cansado, entras em minha frente e impede o meu caminhar. Com um tiro, tu me pára.




Renascida, eu sigo.








13 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Aiai Lais.
Deu para ouvir daqui o seu suspiro. Um alívio!

Suas palavras são sempre lindas.

Parabéns! =]


beijos

Oliver Pickwick disse...

Laís, querida amiga-primaz, a sua escrita se refina a cada post. Você poderia até mesmo dispensar a criatividade, os sentimentos intensos, e as palavras desconcertantes tatuadas nos seus escritos que, ainda assim, seria um exercício de raro prazer a sua leitura. Algo como o prazer do matemático em demonstrar um teorema complexo que, na prática, não tem maiores aplicações.
Só posso reafirmar a minha condição de fã, admirador, freguês e cliente do que escreve.
Queria destacar um trecho, porém desisti, seria injusto com as demais palavras.

Gabriele, minha pequena lady medieval, seu pequeno grande conto revive os textos de Virgínia Woolf, contudo, mais moderno, com uma melancolia mais palatável, doce até em alguns momentos.

Samantha, querida amiga,o seu ar de professora catedrática de filosofia cartesina é enganoso, ele dissimula a verdadeira mulher existente em você, às vezes pedra; por vezes, vidraça.
Se eu fosse o Sam, tocaria todas as vezes que dissesse: "play it again, Sam!"

Karla, tens a sapiência, economizaste nas palavras, mas caprichou no efeito.

Jupy, és uma expert em descrever momentos intensos, doces.

Querida Martha, só mesmo a sua linguagem tão primorosa permite tecer cipós de letras.

Sissy, a sua aqui-rival-virtual Lara Croft (a dos pc games), morre de inveja por ser incapaz de cruzar um portal estelar com tamanha maestria, como você descreveu neste post.

Beijos para todas, e aproveitem o Natal.

jupyhollanda disse...

Lááááááá,

na mesma hora que te lí veio uma música na minha cabeça: "stop! hey oh! yeah wait a minute mister postman..."

Muito muito bom !!!

Bjos

Ju

Vick Martz disse...

Não paramos mesmo, antes seguimos. Prontos para encontrar aquele pedaço de vida ainda em branca evolução.

www.proparoxitona.blogspot.com

Paulo D'Auria disse...

Lais,

"Vejo tantas esperanças naqueles nãos ditos sem delicadeza."
Onde você encontra essas palavras?
Um relacionamento desigual descrito com poética total!

Beijos

Siloé disse...

Acho que tá na hora de seguir em frente de verdade, é o oficial superior que enuncia ordem de parar, seguir ou descansar! "Não chores por tua pobreza, / não sofras apaixonado, / pq o mundo é grande demais, / não para conter tanta lágrima vã..."
bjos!

Raf´s disse...

hahahahahaha duvido q v c ñ vai tr medo. Em 5 anos d profissão só vi 2 pessoas q realmente ñ tiveram medo, uma era ginasta olímpica e o outro era pedreiro e vivia em andaimes.


É isso mesmo, continue andando. Na verdade andando ñ, correndo. Pelo menos se der errado vc ficou sabendo, se vc ñ tentou nunca saberá se daria certo. A menos q seja alguma coisa suicida do tipo pular d uma ponte sem corda, então é melhor ñ tentar. Sei lá, é só a minha opinião, vc ñ precisa necessáriamente seguir.

Salve Jorge disse...

"Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse sofrer
E se não tivesse chorar

Melhor era tudo se acabar.." (Vinicius de Moraes)

Se Laís parasse
Não seria engano
Nem seria leviano
Seria humano
Que nada mais levasse
Mas Laís segue
Eu sei que ela consegue
Porque não é fácil
Mas é melhor
Ela é uma fada
Ela é maior
E nessa caminhada
A dor não é o pior
Pior é esquecer
Arrefecer
Se deixar morrer
Porque perder
É o preço do ter a ganhar
E se dói voar
Com as asas sangradas
Não sois menos sagrada
Pelos profanos atos
Doídos partos
Pontos nodais na empreitada
Ainda assim voemos
Não para esquecer
Para aprender
E constituir nossa concretude
Marcada por cada vicissitude
Cada dorzinha amiúde
Que irá nos engrandecer
Isso digo à você
O melhor canto que pude tecer
Não pare
Sempre siga
E quem sabe minha amiga
A gente não pita um pra valer
Nesse ano, foi um prazer lhe ler
E um tanto conhecer
Como disse, sois fada
Do tipo mais encantada
E sempre que quiser esticar por cá sua jornada
És mais que bem vinda em Pasárgada

"Não pare na pista
É muito cedo pra você se acostumar
Amor não desista
Se você para o carro pode te pegar

Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem medo
Do guarda a multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem medo
Pra outro lugar.."
(Raul Seixas)

Paulo Bono disse...

segue escrevendo, Mouriê.

SAMANTHA ABREU disse...

tanto imperativo que, não pode-se negar, é a cara do amor.

um beijo, querida!

Paulo Castro disse...

Laís:
vc esse texto como uma peça de teatro.
Mais que peça: como uma dança sobre palco.
Com jogos de luzes e música sutil rapidamente trocada por algo explosivo, dodecafônico, ou uma Overture de Wagner no limite máximo do som.
A queda dos que se lavantam já antes do tombo.
Aceita essa dança, senhorita ?
beijos.
°

Jota disse...

Teus pés feridos massagearam meus pés feriados, que se regozijam de um ventinho fresco e de poesia forte como a tua.

Viva a teimosia de se seguir vivendo!

Claudia Lis disse...

Perfeito Lála! Um dos que mais gostei. Não poderia ter sido mais bem associado.

“Dizem Pare! E eu ouço Siga!”

Huuuum, quem será que vive falando uma barbaridade dessas? Quem será? Hahahah...

Beijão para D. Lála teimosa