quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Ponto Final, por Lais Mouriê


Acabo com tudo que dói em mim

num copo de vodka quente onde cuspo meu desalento.

Cuspo você, como a um resto de saliva mal engolida,

que me causa a mesma náusea

sentida na gravidez do filho que você não conseguiu fazer.


Acabo com o resto da decência que restava em mim

fingindo sentimento em nossas transas.

Engano-te como a um cão, faminto e abandonado,

para o qual dou as sobras do almoço mal feito,

fazendo-o acreditar que a porta da casa logo lhe será aberta.


Acabo comigo mesma quando quero acabar com você

desfaço-me em sangue e carne para te enojar.

Como meus próprios pedaços na sua frente,

deixando o sangue escorrer enquanto te beijo

para sentir seu asco coberto da minha essência vermelha e faminta.


Acabo com tudo

e com o nada que sobrou de nós.

Acabo, mas ainda preservo estas frases

que terminam neste ponto final.


19 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Lais, há tempos não leio algo tão tocante assim. Um soco com luva de pelica em quem lê.

Você conseguiu dizer agora o que eu sentia meses atrás.
Não tem como não gostar, como não achar emocionante e como não se sentir tocada por isso que escreveu. E não encontro palavras o suficiente para expressar.

Lindo.
=*

SAMANTHA ABREU disse...

Lá.
aquela coisa de tentar se livrar.
Mas o amor arrasta junto, defende, revira.
Quando revira, faz o avesso, a gente sangra, não é?!
e, depois, acaba, e morre.
Só que essa é morte da qual se ressussita.
Ela matou e, em alguns momentos morreu junto. Mas voltou, fênix, pra botar o ponto final.
Bom demais, gatona!

Um beijo!

Lunna Montez'zinny disse...

A gente sempre tenta se livrar de alguma coisa que insiste em ficar agarrada na pele, feito tatuagem, só que essa já sai e o amor ou aquilo que a gente pensa ser amor fica mesmo depois que morre e parece que a gente morre junto.
Me arrepiei.

Claudia Lis disse...

Lala,

Esse “ponto final” forçado dói muito! Não deveria ser assim! Dói por ser ponto final e dói também por te obrigar a querer que ele seja um ponto final efetivamente, enquanto ele tinha tudo para ser vários outros pontos como três pontinhos, pontos de continuação ou um ponto de exclamação (principalmente, hehe). E eu fico aqui pensando, como seria se ele fosse qualquer um desses outros pontos.

Lindo Lala! E muito bem pontuado!

;-)

Paulo Castro disse...

Um amor de carnes, pedaços, peles e mucosas arranhadas, sangrantes, em que o asco é pervertido em tesão, em que o abandono e a solidão são formas de amar com uma intensidade maior.
Na peça que esqcrevi pra Portugal, "Red Shoes" há uma cena muito bonita, em que a atriz Joana Nossa, se corta com giletes, o corpo todo, dentro de uma banheira. Sem que morra, no entanto, é como se ela se masturbasse com a dor. Algo assim, a dor-amante aparece aqui também, como em todo bom samba, como em toda tragédia grega. As feridas, as marcas que ficarão, serão tatuagens únicas de amor. Explodir sistematicamente o próprio corpo, deixando um ponto final como final, mas deixando um espaço para o Outro pensar no que leu. Então não há ponto final. E sim, um salto abissal em direção ao Outro, que assim é levado à paixão radical.
Beijos.
°

Salve Jorge disse...

Ponto final
Foste afinal
Finda a náu
Naufrágio já antevisto nos presságios
De uma cega mulher
Que cobrava pedágios
Por seus anúncios de uma qualquer

Findou-se
Tudo que eu trouxe
E do que ficou
Pouco gosto restou
Mas o sengue correu
Tanto você verteu
Que a veia encolheu
E a artéria se foi
Como nós fomos
Vendo não sermos os donos
Apenas os pomos
Caídos de uma árvore
Semando uma grama gélida
QUe nos impede de tocar o solo...

Paulo Bono disse...

não achei luva de pelica não. achei uma tijolada mesmo. massa.

abraço

KIMDAMAGNA disse...

Saber dos princípios,
do fonético caos erótico,
do sentimento robótico,
porquê? o adeus? o ponto final?
É o trabalho da criação é assim: mata para renascer.
Não há volta a dar?

Paulo D'Auria disse...

"Acabo comigo mesma quando quero acabar com você (...) Acabo mas ainda preservo estas frases Que terminam neste ponto final"

Demais, Lais! Metapoesia, automutilação, tudo no liquidicador cotidiano de emoções de um relacionamento que se acaba.

Demais!

Priscila Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Priscila Lopes disse...

Boa construção. Na minha humilde opinião, o final esfria um pouco. Você parece entregar os pontos ali, como na história que descreve.

Até então vinha se entregando ao poema.

Apareçam no Cinco Espinhos!

Mayara disse...

será que o ponto final apesar de doloroso não foi melhor?
e uma questão para se pensar…

lindo!!

Cin disse...

Intenso, forte e corajoso. Essas pequenas mortes são sempre necessárias para um recomeçar com êxito.
Bjos flor!

disse...

Profundo demais, Laís. De arrepiar a alma.

José Calvino disse...

Querida Lais,
Texto profundo. A meu ver trata-se de uma tejolada nos pés de quem se encontra sentado...que terminam neste ponto final.
Demais!
Beijos do,
Calvino
Recife

alan disse...

lais...
otimo ... foi um aborto do nada que restou ...
beijo

Siloé disse...

Bom, não tenho mto o q dizer, Lais. Apenas remarcar a tendência corporal, só que dessa vez a dor ocupa mto mais o lugar do prazer. Mas, enquanto se tem as frases, e pontos finais - mesmo que marquem apenas passagem de um parágrafo a outro - podemos ficar traqüilos. A reticência é que, às vezes, pode ser duramente insuportável, quase um insulto, uma agressão, contra a qual esse poema pode ser uma resposta à altura!
Bjos!

Jota disse...

Um soco no estômago, mesmo. Até as tripas foram regurgitadas, agora.

Muito forte e muito bom.

anjobaldio disse...

Visceral, lindo.