terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Às Amarras, por Samantha Abreu

foto: andrzej jurczak
Quando acordei,
essas correntes já estavam aqui.
E eu, amarrada
aos seus pés.
E eu, presa
à sua vida.

Não me olhe de cima, meu bem,
eu jamais quis tal resignação.
É sua a culpa
dessa dependência
química
cínica
crônica.

Amarras,
me arrastam mundo afora
em suas aventuras.
Não posso correr acorrentada
dói,
quando me olha assim
de cima,
meu bem.

26 comentários:

Jota disse...

Só há pouco tempo descobri - da melhor forma possível - que amor combina com asas.

Não com correntes.

Beijos!

Polly disse...

Viver acorrentado é temer ser você mesmo...é temer fazer o que se quer, viver o que se pretende.

Amor acorrentado é coisa de covardes...e eu acredito que amor seja algo para quem tem coragem, porque é preciso coragem para amar.

Concordo com seu amigo: Amor combina com asas.

Beijos!

Paulo Bono disse...

então, salta fora.

Paulo Castro disse...

Não, caro Paulo Bono.
Não é questão de saltar fora, meu jovem.
É questão de sentir a dor e a gostosura de estar em amarras, com alguém olhando de cima, não do trono "democático", burocrático, mas do porracrático. A dor não é uma queixa. É um agradecimento. E quando as amarras fores soltas, a chave na algema, a presa vem como louca e devora quem a dominava.
Tudo é jogo.
Que seja o mais tesudo possível.
Fora isso,
o texto é foda.
Em forma, estilo. Tem uma birra com que comenta um texto literário com um comentário tipo "conselho", ou "nossa, já vivi algo tão igual....". Que merda é essa ? Viveu nada. Escreveu aquele texto? Foi capaz disso ? Não. Então se recolha na insignificância de quem apenas aprecia a obra. Não quem ( que arrogância !!) "aconselha" o autor.
Fodam-se.
E pra Samantha: todos os beijos, algemas e liberdades de.correntes.
;)
°

disse...

Pq a dor é tão bonita? Tão poética... Ela sempre veste melhor a literatura.

Gabriele Fidalgo disse...

Nossa. Forte esse seu poema, Samantha. Achei ele totalmente verdadeiro.

Parabéns, Sá. =]


Beijos

José Calvino disse...

Poetamiga Samantha,
Poema muito forte... estou sem
palavras, menina!!! Acho que o
Paulo Castro já disse tudo...
;
Beijos libertadores,
Calvino
Recife

Gerlane disse...

Este poema lembrou-me aqueles versos de Camões que definem o amar, entre outras coisas, como "o se estar preso por vontade...é servir à quem vence, o vencedor..."

Abraços!

Oliver Pickwick disse...

Passei para desejar um Ano Novo repleto de saúde e paz.
Beijos!

KIMDAMAGNA disse...

... os olhos todos
acorrentados
desamarram aventuras...
nosso peso nadando
nos olhos de cima,
dói...
?
Tou sentindo de você, uma incursão mais profunda,
nos textos
será o real
ou é mesmo um puro espírito da água?
Uma doçura esta dependência química cínica crónica... e não dói

Lais Mouriê disse...

Não sei se o que dói mais é esse olhar de cima, ou as marcas que, inevitavelmente, as algemas deixam além de nossos pulsos!

Perfeição, lindeza!

Jana disse...

Então trate de arrebentar tudo isso!

Beijos

KARLA JACOBINA disse...

Sá,

Adorei a forma que começou o poema, me fez lembrar Monterroso e seu dinossauro.

Beijo

Eduardus Poeta disse...

INTERESSANTE DEMAIS ESTA DIVISÃO DE OLHOS...

PARABÉNS

Eduardus Poeta
http://reticenciaspoeticas.blogspot.com

Notícias Mentirosas disse...

Eu tenho uma leve impressão de que já li isso no Alta Intimidade!

yeah.
gracias e um feliz natal pra mulheres que geram versos.
um bejo

L. Rafael Nolli disse...

Samantha, a mistura de ternura - o carrasco tratado por "meu bem" - com a força, a ironia, estão bem definidas no poema. Um belo poema como esse dispena comentários!

Paulo D'Auria disse...

Sá,

Texto maravilhoso. Então não é assim estar apaixonado? Justamente esse jogo de ilusões? O grande amor, o carrasco? As amarras, a liberdade?

Perfeito,
Parabéns!

Beijos

Lucas disse...

Samantha, parabéns! Poema lindo, gostoso de ler, difícil de ouvir: cala fundo. Por isso resolvi pra mim que amar é abrir mão. Acorrentado ou solto, o amor é livre. Ele se resigna. Ou deixa pra lá. Bj, Lucas!

Adriano Caroso disse...

Por que será que o amor quase sempre nos impõe amarras? Temos mesmo que procurar soltá-las. Lindo o poema!

Nanda Nascimento disse...

Tudo dói quando se está acorrentada, inibe seus movimentos, manifestações, reprimindo sempre, não permitindo que a pureza do amor verdadeiro se manifeste...

Beijos e flores!!

anjobaldio disse...

Além de belo o poema, a imagem é maravilhosa.

Grazzi em ContRo disse...

Foda é quando não dói mais nada e vc ainda acha que virou alguma coisa que preste.

Bem bonito seu poema!
beijo.

Anônimo disse...

Vou comentar mesmo sem convite, não deve mesmo precisar, né?
Transmitises uma emoção muito gostosa... o gosto por estar presa a quem se ama em uma dependência boa/má. Amor intenso, a felicidade na escravidão.Lógico: aprecie com moderação! Gostei.
Anna Akhmatova

Pan disse...

Mocinha, intensa e querida... belíssimo texto!
Tô retomando o meu cantinho, voltando aos poucos... Passa lá para gente comer um chá com bolachas.=*

Fabrício Fortes disse...

amarras, amarras.. quando menos se espera, elas aparecem.. amarrando.

Calebe disse...

Não sei dizer com exatidão, mas me lembro de uma frase que o Rubem Fonseca colocou, de espécie de prefácio, em um livro seu de contos, o "A Coleira do Cão". Dizia que, mesmo o cão tendo se livrado, quebrando a corrente onde estava preso, levava consigo os grilhões por uma boa distância. E, às vezes, penso, as amarras, até aonde podem nos prender, e depois de livres delas, até aonde levamos pedaços dos grilhões fixados a nós?

Mas, sabe, é preciso também, às vezes. E se agora, no poema, ou mesmo na vida, não é possível correr por estar acorrentada, por doer impiedosamente ser olhada de cima, com resignação, você tem o quê de romântico para passar por isso magistralmente. Não é?