terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Caso Sério, por Samantha Abreu

...porque tem coisas que recomeço nenhum muda.
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Não me sinto bem nesse lugar. Perdi meu lar em algum degrau das escadas que você desceu correndo, com as malas na mão.
Amanhã é dia de feira e eu não tenho mais pra quem comprar berinjela, esqueci ou não deu tempo, não sei, de te dizer que aprendi a fazê-las crocantes. A casa está suja e não precisa mais ser limpa, vou entregar as chaves amanhã.
Tudo novo por aqui: vida, casa, ano novo. Mas o amor...
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Saiba que o elevador voltou a funcionar, assim como minha vida, embora ela não suba. As janelas têm marcas de dedos e de respirações abafadas. Fico aqui olhando a chuva e pensando onde, diabos, você deve estar agora. E porque levou tudo o que fazia essa casa cheia, mesmo deixando toda a mobília.
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Não entendo essa coisa de esquecer, tenho um retrovisor cerebral insistente. Até no caso daquele estagiário novo. Ele tem cabelos da cor do seu, todo mundo concorda. Estou ficando envergonhada, dia desses passei os dedos por entre os cabelos dele enquanto atravessava o corredor. Ele quase caiu da cadeira, por conta do susto que levou. No fim de semana fui àquele sebo da higienópolis e um rapaz folheava sua antologia do Leminski, eu, de súbito, lhe arranquei o livro da mão para procurar a dedicatória que te fiz. Não sei, me passou por um segundo que você poderia ter dado aquele livro. Fui tomada por desespero e tive vontade de estapear o rapaz, coitado.
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Como vê, estou vivendo outras aventuras. Coisas novas. As pessoas começaram a me olham estranhamente, e já fui aconselhada pela Selma a procurar o doutor Manuel, de novo. Mas sei que ele vai me fazer milhões de perguntas das quais prefiro ignorar as repostas. Acho que não posso ser chamada de louca por isso. Ou será que não tenho esse direito, caralho?
Estou te escrevendo para dizer que não vou ao médico sozinha. Você deve assumir sua responsabilidade e ir comigo, para responder às mesmas perguntas. Afinal, você sabe muito bem que a culpa de tudo isso é sua e dessa sua mania de achar que pode ser feliz sem mim.
E saiba que você não pode.

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Nem Reveillon muda isso, querido.
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21 comentários:

Kimang disse...

O sofrimento é que é sempre o recomeço.
Na minha modesta opinião se a heroína aqui da história virar o retrovisor cerebral para a frente, vai dar certo.
Gostei do intenso narrativo, uma forma mágica sobre o real.

XAxuaxo

Gabriele Fidalgo disse...

Adoro esse tipo de escrita, Sá.
Aliás, parece que você está começando o ano mais inspirada ainda. E isso sim é que pelo jeito não muda.

beijoos.

Grazzi em ContRo disse...

É..coisas que partem ficando nunca vão embora mesmo..elas repartem vc em mil pedaços que ficam tentando se reencontrar sem conseguir..

"Nem Reveillon muda isso"

Beijos.

Paulo D'Auria disse...

Bravo, Sá!
Lindo texto. Intenso, mergulho nesta loucura que a paixão dispara.
Sim, estamos loucos, nós sabemos. Os amigos avisam, mas nós já sabemos. Apenas não queremos deixar de estar.

FELIZ 2008

Rafael Avansini disse...

Adoro suas mulheres psicóticas, histéricas, mas calmas...
Beijos Sa.
Feliz ano novo pra todos nós, e veremos... De-repente as coisas mudem...de-repente continuam na mesma... de-repente recomeçamos, de-repente não...rs

josé guilherme fidelis disse...

hahahahahahahaha

muito cômico o drama narrado aqui. Faz rir e chorar, parabéns. Espero que seja só elocubrações literárias. Na vida a gente vive só, mas na literatura às vezes fica interessante culpar os outros. Talvez porque entre as coisas mais interessantes da vida pra escrever estejam essas casos do coração.

beijo, bom 2008 pra todos nós!

Lunna Montez'zinny disse...

E como se pode esquecer, não é? Gostei da intensidade no texto, me fez pensar em mim e sacudir minhas indagações. Sempre procuro essa tal fórmula mágica, até hoje não encontrei. Seria eu tão psicótica quanto suas personagens? Ai.

Tyler Bazz disse...

Maaaaaaais uma mulher sob descontrole, né..
uhhuuhuhuhuh

o/

Adriano Caroso disse...

"Fico aqui olhando a chuva e pensando onde, diabos, você deve estar agora. E porque levou tudo o que fazia essa casa cheia, mesmo deixando toda a mobília." Amei esse texto e esta frase então.... Espero que tudo mude na sua vida pra melhor inclusive esta habilidade fantástica com as palavras!

Anônimo disse...

Esta semana estava lendo sobre como elaborar as perdas... fechou com teu texto. Mulheres que depositam nos homens suas possibilidades de ser feliz,os tomam como uma propriedade e se dão como um objeto integrante do patrimônio. A frustração aparece inevitavelmente na mesma medida da expectativa. O vazio está nela, não na ausência do “ex”, o vácuo sempre esteve lá.
Gostei do texto, guria!
Tu és show!
Bjo
Anna

Marcelo Ferrari disse...

"eu não tenho mais pra quem comprar berinjela"... isto é poesia na orelha. Adorei.

Paulo Bono disse...

texto gostoso, Samantha. um de seus melhores.

abraço e feliz 2008

Paulo Castro disse...

O mais bonito nisso tudo é "estou vivendo outras aventuras". Essa frase saltou aqui. Outras que são as mesmas ? Mas as mesmas naquele lugar meio sotão que a gente carrega, meio caverna sem vela, a memória.
Aventuras novas presas às antigas. O texto é isso. Uma tentativa de sublimar na "aventuridade" da linguagem aquilo que está por dentro, mucosas, ritos da carne, seios lambidos do espírito. A letra gera o frenesi da vida ? será essa a esperança de todo escritor ? Ou o dia em que o "ELE" volte e não precisemos mais escrever. Quem é esse "ELE" ? Existe ? Tudo não fica bem melhor quando já não se tem, ou nunca teve? Escrever é um título de covardia não aceita. O escritor é covarde por desconfiar fortemente que o "ELE" que complete não existe. Mas não aceita. E por isso cria. E por isso pode sair da imanência e trancender. Até mesmo nesse mundo ( qual outro ?): ou seja, a pele de alguém que vira papiro ativo, papel de beijo, mata-borrão de boca.
"ELE" nunca voltará ( Sr. Útero), mas existirão poemas, falas e gozos.
beijos.
Paulo.
°

Jota disse...

Vou concordar com Paulo Bono. Aliás, vou plagiá-lo com todo descaramento.

Delícia de texto, Samantha. Sem dúvida, um dos teus melhores.

Jota disse...

Os ciclos só se fecham quando querem. Ou melhor, quando podem. E sempre alternadamente.

O reveillon é só um deles. E nem é o principal.

Beijos!

José Calvino disse...

Cara Samantha,
Fugir assim..., sei não! Em vez de Manuel deveria ser doutor Fróid(rsrsrs)Quando diz:"...Ou será que não tenhoesse direito,"caralho?"
E ele? "Buceta!"(rsrsrs).
Demais, poetamiga.
Feliz 2008!
Beijos,
Calvino
Recife

Oliver Pickwick disse...

Ei, Sam, talvez tenha chegada a hora de juntar este conto, outros contos seus, assim como, os das meninas, e buscarem um editor. Já estou vendo o título na capa: "Antologia de Contos do Falópio".
Beijos!

Sic disse...

Sa (já com intimidade) eu entendo perfeitamente...

Beijos

Transitivos disse...

Quando teima em ficar, não há ano novo que substitua um sentimento. Diabos, será que não temos esse direito?
Belíssimo texto, Samantha. E muito natural. Adoramos!

disse...

Doentio, né? coisas doentias combinam com a arte de um jeito incrível. Adorei, moça.

Pá Mariano disse...

belíssimo texto!
adorei ele e esse lugar.
Parabéns!
Bjos,