terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Jogos Íntimos, por Samantha Abreu

foto: Lilya Corneli
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.....Fechar-se, dar-se, fechar-se, dar-se.
.....Ela faz, inconscientemente, esse jogo que é tão importante quanto cansativo. Permanece nessa guerra cotidiana em nome dos dias em que quer apenas deixar de lado as maquinações, as lutas e olhar o céu com olhos de caramelo. Acontece que alguns dias são feitos exclusivamente para se fechar e isso ela não pode, nem ninguém, decidir.

.....Hoje, ela gostaria de assistir a um filme espanhol deitada no sofá, vestindo apenas a camisola velha e macia, uma meia colorida e os cabelos ao alto. Uma bacia de pipoca sobre a barriga, que a fizesse erguer a cabeça para chorar com uma história triste na tv. Uma história que jamais será a sua. Além do filme, ela ouviria apenas o suspiro da cachorra deitada ao lado.
.....Quando o filme terminasse, depois de muitas lágrimas e sentimentos despertados, ela agradeceria, mais uma vez, pela vida que tem, pelos amigos que acumulou e pelo sorriso que vê ao espelho. Para esquecer aquela tristeza tão ficcional, colocaria uma música francesa sensual, daquelas que enchem a alma de desejos e frescuras infantis. Dançaria sozinha na sala, fazendo a meia escorregar pelo chão fingindo patinar. Cairia deitada no sofá, deixando explodir uma gargalhada boba e sincera. A cachorra observaria tudo com cara de compreensão companheira e pensaria: ‘ela é tão pueril’, então, diria algumas palavras, mas ela receberia como resposta apenas olhares e algumas rosnadas. Compraria o pão que sai às dezesseis horas na padaria da esquina e o comeria ainda quente, com manteiga derretendo, um copo de suco gelado e a boca cheia de farelos. Falaria novamente sozinha e com a boca cheia.
.....Hoje, estaria abrindo-se e doando-se a si mesma. Unicamente.

.....Acontece que, em dias úteis, a velocidade lá fora a arrasta, o sapato scarpin lhe aperta os pés e ela não pode comer pipoca na rua. A cachorra está trancada sozinha no pequeno apartamento e ela não tem tempo para filmes europeus. Ameliè Poulain é uma tola. Não há do que gargalhar, ela não se lembra de desejos fúteis e dançar seria ridículo. Às dezesseis horas ainda estará no banco e o dinheiro não será o bastante. Precisará conseguir mais amanhã, logo cedo.
.....Hoje, nessa realidade que ela tenta colorir, a vida só lhe permite o fechar.
.....E são em dias assim que mais acontecem suicídios.


33 comentários:

Bianca Feijó disse...

nada como o trivial em casa para nos fazer bem...estamos tão comprometidos com o mundo lá fora que as melhores sensações encontramos dentro de casa.

Como já era de se esperar, texto maravilhoso!

Beijos querida!

Linda Graal disse...

Putz!!! sá, que impressionante!! esse texto está perfeito porque dói ao terminar...rss...excelente..

um grande beijo

Clara Mazini disse...

Realmente, cinema europeu é bem melhor que fila de banco. E meias coloridas dão de 10 a 0 em sapatos apertados - ainda mais quando eles resolvem ficar presos nos bueiros malditos do Centro.
Enfim, muitas vezes a vida cotidiana de nós, pobres trabalhadoras, consegue ficar pior que novela mexicana. Ai, que distância de um romance clássico!

Grazzi em ContRo disse...

É uma garota sortuda em ter só alguns dias como esses, de fechar, no final das contas..

Nos outros ela escreve assim, ainda bem!;)

Beijos, Sa!

Jana disse...

Infelizmente nossa rotina, nosso dia a dia, acabam por esmagar os sonhos, ao menos nos dia de semana rs

beijos

Julienni disse...

Sah, acho que vc colocou o texto perfeito pra uma terça feira...fria(pelo menos aqui em Atibaia!)
Adorei!Parabéns.
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Beijos

P.S: Adorei o seu comentário. Acho que estou crescendo!(amadurecendo)=))

Salve Jorge disse...

Jogos íntimos
De tão ínfimos
São tudo
Que o trejeito mudo
É capaz de explicitar
Nas migalhas do jantar
No interlocutor surdo
Em todo esse absurdo
Que é achar ridículo
Um saboroso dançar

Se não há motivo pra gargalhar
Ou parece obtuso o banco
Sejamos francos
Que dinheiro não é o que falta
É outra questão em pauta
Já que as cores estando à mão
Basta prostar-se no chão
E lapidar os sabores
De suco de laranja geladinho
A papo com o cão no ninho
Permitir-se esse profano desalinho
De abrir-se unicamente para si mesma...

Seu Hélio disse...

Muito bom o texto. Dias para si, quanto tempo não o tenho...

Estou cada vez mais gostando desse blog... Parabéns pelos posts

F. Reoli disse...

Esse seu texto daria um curta metragem fantástico... :)
Beijo

enten katsudatsu disse...

Escrevi um haicai que é:
todo dia me suicido/lembrando que nunca envelheço/meu preço é ser inocente. gostaria de ver um filme de almodovar hoje, de incendiar o mundo com luz e paz, que houvesse flores em todos os lugares. que meu beijo seja de amor, um amor puro que guardo no meu coraçãod e menino-homem, queria dançar, ando com isso na cabeça, de baladeiro de plantão. dançar e dançar, todos os amigos reunidos num lugar e dançar rock, trance, raves, sei lá. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
ando assim, ms tenho q fazer o projeto do mestrado. e cair de cabeça na pesquisa.
texto bem articulado, poético e bem escrito o seu.
muito legal e muito bom.
beijabraços. muita luz.

Cássio Amaral.(cão blue das madrugadas abissais regadas a absinto de Baudelaire).
Risos.

Lais Mouriê disse...

Esse texto ficou lindo e doído. Perfeitamente escrito e cuidadosamente doloroso! Parabéns, Samaringá!

Marcus Vinicius disse...

Maravilhoso!

Escrito de forma magistral! :) Nada como um texto que nos coloque em sintonia entre os nossos momentos de alegria e a nossa dura realidade!

bjs

Borboletas Embriagadas disse...

Samantha,

hoje 'ela' já nem pensa nisso... Hoje ela assiste a Ameliè Poulain e chora, porquê a adora, porquê gostaria de ser a própria, de ter aquela cor do filme em seus dias. Hoje ela é como todos nós; todos correndo e correndo... Mas ela ainda pode abrir seus olhos e, no muito tempo que passa entre uma condução e outra, vivenciar a delícia que é a vida! E se não achar que vale a pena, sempre existe uma outra possibilidade, mas correrá o provável risco de não experimentar o que o minuto seguinte terá para lhe oferecer - quem sabe uma borboleta desavisada vai pousar nos seus cabelos de fogo, nas suas tatuagens perfeitas? Quem sabe vai encontrar um álbum de fotos e nele, um grande amor? Quem sabe vai se olhar no espelho e se apaixonar por aquilo que seus olhos refletem (a sua alma) - quem sabe...

*

Lindo demais.

Sérgio Luyz Rocha disse...

Muito bom, Samantha!!!
Mais uma vez você consegue descrever a complexidade do dia-a-dia de um jeito intenso, mas estranhamente simples.
Também percebi/senti teu texto como um curta...
Muito legal!!
Beijão!!

Fabricio Fortes disse...

o que a cachorra não compreende é que os seres humanos têm também os seus sentimentos submetidos a expedientes..
gostei especialmente desse..
:)

Paulo D'Auria disse...

ôpa! Até a Lais já entrou na campanha que está mobilizando o Brasil... "Samaringá Forever"!!!

Brincadeirinhas à parte, Sá, que texto fantástico!

E que dozinha da cachorrinha lá sozinha e trancada...

Beijos, escritora!

cackau disse...

A vida imitando os filmes europeus;
que realidade triste.

anjobaldio disse...

Maravilhoso, e... triste!

Maz disse...

hj me dei ao luxo de levantar às 14h26 (só pq o celular tocou). Sozinha, não troquei de roupa e tão pouco escovei os dentes... não queria viver, só queria dormir...são os dias assim...em que me esqueço de mim!

BêbÉT/Ocica's disse...

nossa...
estou maravilhado com uma morte tão poetica...
e morte é o fim...
e vida o começo...

lindo!

bebel disse...

maravilhoso o seu blog e o que vcs escrevem. add aos meus favoritos. passa lá e diga tbm o que acha do meu...sou jornalista também, mas, minha veia é mais política, menos poetica.
beijao
www.iza.mendonca.zip.net

KimdaMagna disse...

Ameliè preconiza abolir o tempo a partir do próprio tempo, quer ser uma imitação da eternidade. Assim torna ela tudo neutro, acaba com os contrastes e os conteúdos são nivelados.
Está preparada para o kutidiano.

Xaxuaxo

Cin disse...

Duvido que alguém leia e não se veja nela em algum trecho.
Final forte, porém real.
Gostei!
Bjos flor!

Paulo Castro disse...

Até o último paragráfo, a possibilidade de ser zen ( não zen-budista) em uma terra de agruras e fiações.
Depois, em poucas linhas, o mundo vem com tudo, sapatos, falta de pipocas, o relógio-ponto. E por fim, o suicídio. Para Albert Camus, o único problema realmente importante da filosofia é o suicídio. Mas não há ruptura entre a arte de ser zen em uma kitnet com latidos e a rua lá fora. Há continuidade. E se tem nome esse "continum", ele se chama generosidade. Nada a ver com ser bacana e bonzinho. Mas de olhar o fodido caído no chão e não ter pena, por se saber um igual. Tipos, já lidei com vários suicídios meus, hoje lido calmamente com o suicídio dos outros. Isso, sobre o conteúdo. Sobre a forma, perfeita. Controle absoluto. Uso exato da palavra "pueril". Em sinfonias, vemos maestros com medo de segurar no pau. Vc não tem. Não treme. Executa. Faz. Promove. E eu sou um violino.
Beijos.
sempre.
°

Adriano Caroso disse...

Triste sem dúvida mas com a marca registrada dos seus textos. A simplicidade complexa que coloca nas palavras é algo que me encanta. De fuder!

Claudia Sousa Dias disse...

Gostei do texto, mas sou da opinião e sinto a vida como a Borboleta Embriagada...

No fundo acho que somos - eu e Borboleta - ambas sibaritas...


CSD

plágio disse...

hoje é dia 23

Jeniffer Santos disse...

espero q ela tenha sido otimista,e acreditasse q um dia assim cm ela keria,ainda podia xegar!

beijos!

Clóvis disse...

Como uma artista plástica pintando sorridente uma aquarela e ao fim, num impulso torpe, rasgasse propositalmente e intensamente toda a tela multi-coloridamente cinza.

Beijos, querida.

Álvaro Andrade disse...

Obrigado, moça.
Bonito texto... melancolia... pode não ter sido o final dela, mas que maldade.

Beijo!

Marcelo Mendonça disse...

beba a novidade do dia, queime o cotidiano. adorei!

Anônimo disse...

mas a maioria continua viva.
ainda bem.
ainda?
amém!
PP

Juliana disse...

Quando me sinto assim, nesse "arrastar" do séc XXI, que não permite ninguém parar para respirar ou, simplesmente, comer uma pipoquinha consigo mesma, eu começo a ver o invísivel. Pois eh... Eu começo a pensar no futuro, ou a reparar em como o ceú está bonito... Começo a ver o lado bom das coisas... Isso me ajuda a não desanimar, nem deixar pra trás aquilo que me sustenta. Quem hoje não corre atrás, fica pra trás!!

Beijão!! ^^