quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Uma história popular, por Lais Mouriê


Laura não queria ver seu nome cair no esquecimento. De tudo fazia para que não fosse esquecida. Era artista popular, dessas com talento para ser coadjuvante. Atriz que nunca fora chamada para o papel principal. Namorou os caras certos. Jogadores de futebol, atores galãs, empresários, cantores sertanejos. Três casamentos, constantes divórcios, passava o tempo e ninguém se lembrava. Plásticas aos montes, mas os anos não paravam de denunciar a beleza quase extinta. Persistente, Laura continuava a tentar emplacar o sucesso perene. Escreveu uma auto-biografia. Não poupou nos escândalos sexuais. Deu várias entrevistas. Recebeu inúmeros processos. Perdeu quase todo seu dinheiro. O tempo passou e em nenhum lugar o nome de Laura. Apelou para os programas de auditório. Chorou, contou sua história, pediu uma chance para voltar a aparecer. Apareceu. Desapareceu.

Laura passou a vender roupas de gosto duvidoso para um seleto público de vizinhas. Na semana anterior participou de um teste para a nova novela de uma pequena emissora. Ganhou o papel. Um ataque fulminante do coração, na saída do teste, a fez parar no cemitério do centro da cidade. Há uma lápide com seu nome, as datas de seu nascimento e de sua morte e uma mensagem clichê de despedida. Finalmente o seu nome estava gravado para a eternidade.

13 comentários:

Oliver Pickwick disse...

Ei, Laís, querida amiga-primaz. Seus textos há muito, ficaram de mal como o mundo do faz-de-conta. Mas as suas histórias continuam cada vez mais aprimoradas, realísticas, mais "navalha na carne".
Esta, por exemplo, poderia servir de base para diversas outras linguagens, como um conto mais estendido; uma peça teatral; uma mini-série na TV; ou um filme.
Beijos, e feliz ano novo!

KimdaMagna disse...

É para morrer só basta mesmo estar vivo.
Meio tolo esse dito mas é a nossa bruta realidade.
A poetisa pode sonhar, também é lindo, mas o real tem sempre um peso diferente, há quase como um "umbilical cordão" nos lembrando dela.
Realidade madrasta...
Logro da vida...
Não se pode andar sempre por cima de nuvens cor de rosa.
Um dos seus melhores textos até agora.Aqui a Nzumbi desceu ao concreto.
Parabens

Adriano Caroso disse...

Genial! Coitada de Laura...

Izabelle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lunna Montez'zinny disse...

Bem real, as pessoas hoje em dia parecem capaz de tudo para o sucesso e conseguem muito (nada).
Gostei do texto, uma dissertação bastante interessante.

Gabriele Fidalgo disse...

Nossa Lais,
nu e cru! Como o Oliver disse:
'navalha na carne' mesmo.

Nem sempre as coisas são belas.


Parabéns, querida.


beijos

Borboletas Embriagadas disse...

Laís,

que delícia de história! Do tipo que amo devorar... Vai ficando mais e mais interessante, penso: Aonde isso vai parar?Rs... Parou no cemitério!!! Triste a vida tão sem sentido que podemos levar... Triste querer "aparecer" para os outros e não se enxergar... Amei.

Altas reflexões...

*

Pobre Laura. Medo de estar errando( o meu!).

Beijos de carinho*

Paulo D'Auria disse...

Ô, tadinha da Laura!

Mas é isso mesmo, retrato fiel da nosso mundo de aparências. De BBBs e suas celebridades instantâneas.

Riquíssima essa Laura. A partir desse texto você poderia criar uma série com histórias da Laura, passagens de sua vidinha coadjuvante. Inserindo nelas detalhes da psicologia dessa personagem genial.

Beijos

Raf´s disse...

hahahahaha

Seria hilário se ñ fosse trágico.

Falow

Jota disse...

Frase lapidar.

Expressão fúnebre, essa.

disse...

Fortíssimo. E de uma beleza incrível. Sem piedade. Adorei. Maravilhoso, Laís, sem dúvida, dos seus posts até hj, o meu preferido.

SAMANTHA ABREU disse...

e Laura não teve mais apenas os "15 minutos de fama..."

muito bom, querida!
conto curto, seco, real e com uma pitadinha de morbidez.

Parabéns!
um beijo!

Milene disse...

Eu quero ser esquecida...
feita uma folha seca em um livro velho e gasto.


tão bonito, tão real...