terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Câmbio Negro, por Samantha Abreu

foto: Isabel Santana
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.....Foi tudo por dinheiro. Meu Deus! O que a gente não faz por dinheiro?!Já fiz de tudo nessa vida e nunca fui mulher e negar serviço. Já fui faxineira, secretária, manicura e nunca me envergonhei de nada não. Mas dessa vez foi demais.
.....O moço chegou e disse que eu tinha o tal do perfil: rosto marcado de mulher sofrida e guerreira. E eu ia ter cara de quê, com essa desgraça de vida? Ficou olhando pra mim por mais de meia hora, de cima abaixo, analisando e pensando no que faria comigo. E eu nem sabia do que se tratava. Mas ele foi esperto, falou logo de valores antes de tarefas.
.....Agora, vem cá meu nego, eu aqui nessa miséria, matando um leão por dia pra dar de comer a esses meninos, vou lá negar dinheiro? Era mais do que eu ganhava em quase um ano! Enquanto ele falava, eu já pensava até na reforma aqui na casa. Um puxadinho no fundo, uma área de serviço... eu viajava em sonhos e nem prestava devida atenção às explicações do moço. Concordei, fosse lá o que fosse.
.....Era coisa de artista, peça de teatro, sei lá o quê. Quando fui aos ensaios, tinha até a tal da Maria Bethânia. O lugar era tão grande que me deu medo de assombração. Ela cantava: “quem me pariu foi o ventre de um navio, quem me ouviu foi o vento vazio...”. Lembrei de tanta coisa enquanto aquela voz fazia eco, que sentia calafrios de tristeza e melancolia. O moço me explicou que eu seria uma negra trazida em um navio negreiro. Mas, gente, eu jamais andei de navio! Fingi que entendia enquanto ele falava de cenas, de atos e de milhões de coisas que eu nunca tinha ouvido. Minha vontade era de sair correndo de lá.
.....O negócio é que eu seria uma negra transportada em um navio, que optaria pela alegria do samba e da alfabetização. Tinha uma parte em que eu tinha que cantar: “Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas...”.
.....Ah, quer saber, larguei tudo e fui embora. Como é que é? Ia ter que fingir a alegria de uma negra dentro de um navio negreiro? Isso já era demais. Sei bem tudo o que minha raça sofreu. Agüentar fingimento enquanto um mundarel de gente me assistia com cara de encanto pela desgraça dos outros? Era isso que ele queria que fizesse: mostrasse a alegria de ser desgraçada.
.....Já representei quase tudo na vida, mas hipocrisia não! Pelo amor de Deus!
.....E ainda por cima, eu ia ter que tirar a roupa.
.....Ah moço, a única roupa que tiro é a do varal!
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11 comentários:

Ricardo Dalai disse...

amei a ultima frase
auhauahauhauhaa


dedic escreve esse ano de novo??

bjo amore
saudades de vc

Izabel Xarru disse...

gostei muitíssimo da hora em que a negra escuta a Bethânia cantar a tal letra e sente medo.
acertou na caçapa a bola ideal, Samantha!Lindo.

disse...

Muito bom!

Nem tudo o dinheiro compra, isso mesmo.

Anônimo disse...

Puta texto, ao som de Cordel do FOgo Encantado e Chico Science.......

Construção e articulação do texto muito bem feita.

Beijabração. Muita luz e saúde.

Cássio Amaral.

Ana disse...

Essa mulher sabe bem o que quer, hein!
Adorei!
Beijo!

Grazzi em ContRo disse...

Que texto maravilha!

O encanto do canto no canto e a vida como ela é!

Adorei.
Bjo.

calebe simões disse...

talvez perdemos uma ótima atriz..mas princípios hoje em dia é raro.

Marcelo Mendonça disse...

kkkkkk, tirar roupa assim é ruim kkkk

anjobaldio disse...

Sempre é muito bom passar por aqui e ler estas 7 mulheres. Bjs.

Paulo D'Auria disse...

Caraca, Sá!

Que pedrada! Adorei!

Beijos

Fabricio Fortes disse...

Samantha! me lembro desse como um dos primeiros textos teus que li. acho que no blog do diogo lyra ou coisa assim, mas não poderia esquecer porque me chamou a atenção o fato de que ali estava uma escritora de valor.
é muito bom.
e melhor ainda lido novamente.