sábado, 1 de março de 2008

Registros da viagem, por Martha Galrão

Quem morreu foi a irmã de Ivone.

Homem quando fica zangado cospe marimbondo.

Tem quem desconfie que a mulher de 78 anos, casada desde os vinte, é virgem.

Já viu orelha passar cabeça? Perguntou a tia-avó.
Já, de jegue. Respondeu a sobrinha-neta.

O facão de Vardo é implacável contra as graxas e espirradeiras. Quase não sobrou flor sobre flor na sua poda traiçoeira.
A mulher de Vardo é bonitona. Quando chegaram os homens pra trabalhar na maricultura, ela se enrabichou logo por um e foi morar com ele.
Depois que o trabalho acabou, o tal homem foi embora, e Vardo aceitou ela de volta.
Mas bem que ele e a cozinheira ficaram só sorrisos ao lado da futura fogueira. E ele até lhe deu flores da espirradeira.

No almoço, beijupirá - o rei do mar - frito no dendê.

Toda hora alguma coisa some, só pode ser coisa de erê. Some chave, papel do presente, lanterna. O dono da casa fica doido, vasculha tudo até achar. O jeito é ajudar na procura pra não endoidecer de vez.

A moça que eu conheci ainda criança está grávida pela segunda vez. Ela vai mentir, dizer que já tem três pra poder ligar. O marido, desempregado; e o barraco é assentado na invasão. O prefeito já garantiu a escritura. De lá ninguém sai.

Anos atrás a mulher reclamou com o homem: Pra que plantar esses coqueiros se não vai dar tempo da gente colher?
Hoje, o velho vem com o facão e corta o coco. A velha vem com a jarra e apara a água docinha docinha. Melhor coco não há.

Muito passarinho que existia lá não tem mais.
Papai dizia: Se pegar fêmea, solta!
Solta!






6 comentários:

Germano V. Xavier disse...

Que texto delicioso de ser lido, Martha! Adorei...

Abraços pernambucanbaianos...

Germano

Conceição Pazzola disse...

Parece que estou aí, em Guaibim, bebendo água de coco, participando de tudo contigo, Marthinha. Registras muito bem tua viagem.
Que lugar lindo...
Beijos,

Conceição

Clóvis Campêlo disse...

Martha, o mundo todo cabe em Guabim e Guabim cabe na sua cabeça e na sua cabeça cabemos todos nós.

José Calvino disse...

Querida Marthinha,
Um pouco atrasado, eu me senti em Guabim, em cima do coqueiro (igual o da camisa do Beto de Vilma), a existência de mecanismo é em todo caso sempre genuíno porque desvela sua viagem, seus pensamentos, emoções, atos de sua vida vivida.
Que texto bacano, baiana!
Beijos do,
Calvino
Recife

SAMANTHA ABREU disse...

adorável.
parece um filme.

Um beijo, Martinha!

Ane Brasil disse...

que delícia! sinto o cheiro do cocõ e do dendê, misturados na brisa do mar.
Sorte e saúde pra todos!