terça-feira, 22 de abril de 2008

O Sentido das Sombras, por Samantha Abreu

foto de Patricio Suarez
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Não sei, mas quando acordei pela manhã essa sombra já estava aqui. Parada ao lado da cama, olhava-me misteriosamente como se tentasse interpretar o sonho que tive. Talvez, ela mesma fosse um sonho. Aquele da semana passada, quando no lugar da sombra encontrei um cachorro. Joguei no bicho, deu cobra. Começo a acreditar que não sei significar minhas viagens e minha intuição não anda nada aguçada. Acho que fui abandonada pelo espírito do universo e, agora, estou aqui, sem saber o que fazer.

Se eu levantar da cama, tenho medo de ser agarrada por esse vulto sem sexo, que me dá calafrios. Prefiro ficar deitada, esperando qualquer sinal de esclarecimento. Do mesmo tipo que me fez sacar que você realmente estava indo embora naquela noite. Seu olhar perdido, fixo na parede através do meu corpo, como se eu não existisse. Entendi o verdadeiro sentido da indiferença.

Queria ter tido essa mesma percepção escancarada quando vi aquele cachorro e, agora, essa sombra. Preciso entender o que desejam ou pretendem. Embora, de repente, eu esteja apenas enlouquecendo por conta dessa busca alucinada por uma mudança urgente. Sei que não mudarei nada enquanto não entender tudo isso. Só levanto dessa cama quando alguém me explicar pra quê devo viver, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, sem saber porque diabos você fez as malas só com suas roupas, mas deixou tudo vazio por aqui.

Pode ser aquele cachorro ou essa droga de sombra negra. Não importa quem me traga a resposta. Mas, até lá, daqui não me levanto.
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6 comentários:

Lunna Montez'zinny disse...

Os dias, as horas, essas sempre são engraçadas e nem sempre expressam sentido para aqueles que a seguem, como marcha que ninguém sabe para onde vai...
Gostei do texto, da forma como se elucida e leva a tantas contestações e delírios. Não levanto daqui. Ótimo desfecho porque eu exijo uma resposta.
Abraços meus...

Thiago Quintella disse...

Que denso, quanta angústia. Adoro esse tipo de contos! Difícil conectarmos sonhos e relaidade, é muita coisa para interpretar.

Carla disse...

Tava passando e tive o prazer de por acaso encontrar tudo isso ! Simplesmente perfeito , meus parabens ! Amo a arte e isso aqui e tda a pureza das palavras é realmente encantador ...

beijos

Paulo D'Auria disse...

Sá,
Realidade e ilusão. Os cães guiam os cegos, e as sombras são o limite dos dois mundo.
Nós e outros.
Ficamos esperando respostas, mas, no final, nada é o que parece ser.

Beijos

F. Reoli disse...

Eu também queria entender o porque deles(as) nunca deixarem um lugar na mala pra levar de vez essa sensação de vazio com eles... Eles(as) sempre, sempre se esquecem...
Te beijo

Grazielle disse...

A cama é quente e aconchegante mas não tem respostas... aliás... às vezes penso que elas não existem... e aí eu sigo sem procurá-las mais!