segunda-feira, 19 de maio de 2008

O KARMA, por Karla Jacobina



O KARMA

"O mundo é tão pequeno" - as coincidências me disseram, enquanto eu andava. Eu andava à toa na rua... Não! Eu acreditava que andava à toa na rua.

Mal sabia eu que ao me avistar, o sinaleiro contou para os carros que eu viria a passar. Os estacionados disseram para a calçada que me aguardou sentada e de braços cruzados por toda a tarde. Os carros que fechavam o cruzamento apontaram "olha lá seu guarda, olha ela ali, olha!", o guarda ao ver que era verídico coxixou para o rádio que avisou a antena que contou tim tim por tim tim todo o fato para os postes. Estes, por sua vez, narraram pasmos para as lâmpadas que num susto se ascenderam contando para todas as avenidas que eu vinha logo ali.

A essa altura, o karma, careca de saber que logo ali eu vinha, vestiu devagarinho sua máscara de acaso e sem preocupações à testa, se deitou bem a frente ao meu caminho.

Um pouco distraída, talvez, tropecei. Me levantei, amarrei os cadarços teimosos e enquanto me reconstituía do tombo, uma voz me questionou se eu estava bem. "Tia Cleonice" pensei. Tia Cleonice foi a professora que me ensinou as letras e articulava-as, agora, de maneira atenciosa e preocupada.

- Não acredito! Ela disse.
- Em quê, em karma?
- Como? Ela respondeu.
- Muito bom o seu perfume. Falei. Tia Cleonice ainda cheirava a toddy com bauru.
- E eu, tenho cheiro de quê?
- Hein? Ela disse, com uma onomatopéia interrogativa.

Nos despedimos. Eu, por força do hábito, subi na ponta dos pés para abraçá-la.

Tia Cleonice atravessava a rua. Não! Eu acreditava que Tia Cleonice atravessava a rua, porque na verdade, fui tropeçando nela até chegar em casa.

O karma deixa o mundo tão pequeno!

3 comentários:

MARIAESCREVINHADORA disse...

Original e bem bolado, traz lembranças com cheiro de toddy e bauru da "professorinha que lhe ensinava o be-a-bá" (como nos versos de Ataulfo Alves).
Abraços,

Conceição

Juliana disse...

Coisa boa, isso.

meus cheirinhos estão soltos pelo ar...
quem dera o acaso me trouxesse um deles, qualquer dia

Paulo D'Auria disse...

K, vamos conversar... De onde sai tanta criatividade???

Divertido e genial!

Beijos