domingo, 18 de maio de 2008

Trânsito, por Juliana Hollanda


Transitar era instransitivo. Medo de andar era transitório. No trânsito, as janelas fechadas e a asfixia. Correr era impossível. Fácil seria cantar se tivesse voz. Não! Melhor ouvir "aipode" e ficar blindada para os males e chatices do mundo. Ouvir música e lembrar daquela noite na cama – foi com essa. O último porre: foi com essa outra. A melhor gargalhada depois de anos: "Totalmente demais...". O último show: "me absorva...". É, essa sou eu e canto bem alto, quase estridente: "you say, I only hear what i want to". Sim, por isso eu estou com os fones no ouvido. Sim! Por isso eu não agüento ouvir mais papos sobre shampoo, creminho e desilusão. Eu não quero ouvir ninguém falar que deixou de aproveitar a hidro do motel com aquele gato para não estragar a escova. Não quero ouvir ninguém falar que tá se sujeitando a dormir com um cara sacana só por carência e nem que o namorado, aquele de quem ela tava noiva, foi visto de madrugada no maior amasso no reduto da Boêmia do Leblon. Eu não quero ouvir falar de pais que trancam filhas no porão e nem de filhos que matam pais e nem de supostos praticantes de um novo esporte. Quero encontrar a minha turma nos acordes das músicas que ouço e chegar em casa no final da noite com um arco-íris de isqueiros na bolsa; montar um quebra-cabeças com eles: esse era da (...) e esse do (...), aquele ali: de quem? E por aí...
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Tossir até que tudo se exploda. Melhor o tudo do que o eu. Melhor seu mundo do que o meu. Melhor as calças rasgadas no joelho e o tesão. Masturbação. Melhor lembrar daquela última noite em que durante três horas o mundo parou e o seu corpo sentiu sem parar. Melhor imaginar a próxima, que será amanhã. Melhor imaginar e deixar o rio escorrer por entre as suas pernas; "don't have to be beautiful, to turn me on...kiiiiss".
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O trânsito continua parado, mas as janelas se abriram. O sol nasce por entre os dedos já não mais tensos ao volante. Impossível transitar. Transitório é o medo. Andar é intransitivo. Eu respiro e ouço "aipode". Eu posso e canto a voz da asfixia. Não tenho voz.
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3 comentários:

KARLA JACOBINA disse...

Viva o trânsito!
Viva a transa dos pronomes com os verbos transitivos ou não.
Viva o seu transe, Jú! Viva!

BeiJU!

Sérgio Luyz Rocha disse...

Como é mesmo que se diz quando a gente não tem palavras?

Paulo D'Auria disse...

Nossa, Ju, que viagem! - e com o trânsito parado. Road-movie, road-poem! Muito bom!

Beijos