terça-feira, 1 de julho de 2008

Coloral, por Samantha Abreu

foto de katarina Sokolova
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Quando ele foi embora, ela tratou logo de tirar todas as flores e cores da casa. Pintou todas as paredes de Bege.
Aquelas flores só faziam cheirar a cemitério. Ficavam sobre o aparador, estáticas e cabisbaixas, velando toda a energia que, com ele, tinha se esvaído.
A casa ficava sóbria assim, pálida. Ao contrário dela, entregue às alucinações, às pontas de viagens inacabadas e a um alcoolismo anestesiador.

Coisas muito coloridas têm cara de criança, ou de prostituta.
O estranho era que, mesmo com tudo bege tão discreto, longe dele ela estava se sentindo um pouco dos dois.
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7 comentários:

José Calvino disse...

As paredes pintadas de bege, narrado com sobriedade, de um sentimento de tristeza e outras fazem de "Coloral" um marco escrito com ternura esperançosa.
Parabéns, Sa!
Beijos do,
Calvino
Recife
PS.: Muito linda a foto de Katarina Sokolova.

Rafael C. disse...

O ambiente de dentro não é tão fácil de mudar como o ambiente de fora...Ver o bege não implica sentir o bege...e o talvez, esse é o que faz doer!

ótimo blog esse de vcs!
com calma vou marcar o link depois... :)

KimdaMagna disse...

é bem possível viver a dois algo intenso, sem que se tenha de beber o "Eu" do outro, só porque, o "meu eu", se manteve insubstituivel, autónomo.
Um pressuposto de desordem de (de)s amor,tipo uma desregulação patológica sobre os sujeitos intervenientes numa dada acção.
Que raio porque será que tem que ser tudo ordenado? previsivel? mais do mesmo?...

KimdaMagna disse...

Xaxuaxo

anjobaldio disse...

Textos belíssimos, emocionantes. Grande abraço para todas vocês.

Salve Jorge disse...

Bege
Rege
Range
Enseja
Tange
Tinge
Finge
Fim bege
Brejo
DSe fauna ríquissima...

Aline Aimée disse...

ah, a beleza de cada momento, que vc apreende de forma tão fina e precisa! parabéns!