domingo, 15 de junho de 2008

Paladar, por Juliana Hollanda

.
os chocolates não têm mais gosto.
minha língua sente apenas sua pele. único alimento. gosto. fonte exclusiva de prazer salgado.
suor com partículas; nós.
fragmentos, cheiros, perplexidades.

sua companhia é tudo o que importa. seu braço travesseiro é só o que não me afasta da vida.
aliás- sim! me afasta dos outros e de todos os perigos.
de tudo o que não desejo enfrentar.
me aproxima de tudo que válido pode ser vivido ao seu lado; sentir.

dormir com você e não querer acordar, levantar, afastar-me de ti. o seu cheiro que embriaga e faz com que todos os outros cheiros não me dêem prazer.
até o seu "mau-humor" é música.
as broncas que fazem chorar me aquecem no entardecer mesmo quando o meu ciúme é a única coisa que atrapalha.

estamos conectados, apaixonados, enlouquecidos e livres, mesmo que algemados; presos.

eu tenho medo de você solto nessa cidade e eu queria "ter uma bomba (...) paralisante qualquer" para matar todas que você já possuiu e deu prazer. todas que nunca foram tuas porquê você não as quis com seriedade. eu queria matar todas elas que olham torto para nós e desejam amarrar meu nome na boca do sapo para que eu te perca ou me perca de você. todas as que desejam pular a janela da sua casa, entrar no nosso quarto e roubar fotos e cuecas suas para fazer mandinga. todas que beijaram o pé do Santo Antônio pedindo um você para casar... eu tenho um verdadeiro desejo terrorista de exterminar com elas que passam por nós rebolando e soltando gritinhos histéricos e risinhos infantis.

eu sei que tudo isso não deveria importar, mas eu sou ciumenta demais. eu te amo demais. eu quero dormir com você para nunca mais acordar. os chocolates não tem mais gosto. só a sua pele me alimenta.

eu eu você. lençois. um travesseiro. um colchão. uma janela e estamos preparados para a guerra. vamos hibernar. não precisamos de nada. só de alimento. alimentarmo-nos um do outro. sorver o suco um do outro. lambidas e pedaços de respiração "me interessam" e sim... somos um clichê de nós mesmos, mas o amor é isso e nós não temos como fugir do aquilo.

isso é destino e tudo começou naquele beijo roubado na porta do banheiro. eu estava com gosto de cerveja e chocolate na boca. na mesma hora, tudo perdeu o sentido para sentir você. seu gosto. seu beijo. sua língua. seu braço. seu sopro.

tudo passou a fazer sentido e tudo passou a existir em mim.
você e eu; nosso jardim de maravilhas num quarto fechado, com sorrisos e brigas e línguas e barulhos e vento.
nada tem mais gosto para mim.
os chocolates perderam o sabor.

derretendo na língua - só o seu corpo.
.
.

Nenhum comentário: