terça-feira, 29 de julho de 2008

Complacência, por Samantha Abreu

foto de Marta Glinska
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E porque não sabe me proteger, me afunda. Já que não tem o que fazer aos domingos, me mantém presa ao seu jeito monótono de passar os dias, chamando isso de vida. Corro antes que você perceba e faça escândalo na portaria. O síndico sempre reclama, mas depois compreende. Eu passo algumas horas explicando suas formas estranhas de provar que me ama, ouvindo conselhos de como me livrar do seu jeito passional e intenso quando te bate o medo de ficar sozinho.
Tenho vontade de te dizer algumas verdades, mas seus olhos têm a infantilidade de quem não sabe o que faz. Cerro os lábios e espero a vontade passar. Tento uma distração solitária ao som de Nouvelle Vague, desejando um momento de pura reflexão e sossego, mas você logo aparece à porta querendo uma dança ou um colo. Não resisto a essa sua carência. E você sabe bem disso.
Já tentei te deixar tantas vezes por não te suportar assim, dependente. Sinto um fundo de pena, mas, ao mesmo tempo, tua necessidade de mim me faz forte. Se durante todos esses anos uma coisa tem compensado a outra, querido, vamos longe com isso. Posso prever nosso futuro: dia após dia, até que a corda arrebente de um dos lados. E espero não ser surpreendida por descobrir que sou o lado mais fraco.
Podemos sair pra jantar hoje, arrumei um lugar bacana e barato. Estamos na semana do aluguel, até deixei um lembrete na geladeira. Espero que, pelo menos nesse mês, você não esqueça do que deve fazer.
Chego logo, fique pronto às dezenove
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4 comentários:

Germano Xavier disse...

E quem não usa relógio, Abreu.
O que se faz?

Abraço forte.
Germano

KimdaMagna disse...

fundo de pena...
.-pena só mesmo a da poetiza para escrever( também agora só se escreve com caneta, esferográfica).

O jogo das dependências, é aliciante, mas insuficiente para uma libertação total.~

Abraço na Kianda

Xaxuaxo

Cláudia I. Vetter disse...

O dia-a-dia por ti me colide e me espanta.

;*

Aline Aimée disse...

Esse tema da dependência é atualíssimo! Um ego q se cola no outro em sobrevivência parasitária e o outro que nele se sustenta. E Nouvelle Vague é tudo de melhor, não é mesmo?