segunda-feira, 28 de julho de 2008

TESTES VOCACIONAIS, por Karla Jacobina

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Aos dezesseis, com os seios e a língua em crescimento, o teste vocacional me aconselhou: advogada, administradora de empresas e artista. Coloquei o dedo indicador esquerdo entre o lábio superior e a ponta do nariz, apoiei o polegar da mesma mão entre o queixo e o pescoço, contraindo as pálpebras dos olhos, realizando, dessa maneira, uma expressão degradê da dúvida à curiosidade. Mas se conselho fosse bom, ainda mais de teste vocacional, não haveria a dependência psicológica e universal por todas as sextas-feiras. Aos trinta e um, com os seios e a língua tão flexíveis quanto as experiências me tornaram, outro teste vocacional me aconselhou: Relações públicas, comunicação e artista. Quinze anos haviam se passado, conselhos permaneciam não sendo confiáveis, segundas-feiras odiáveis e eu acabava de aprender a falar. Havia abandonado o choro de pitangas no subjuntivo e os vocábulos do cotovelo. Liguei para minha melhor amiga e comecei a desenvolver um pouco mais minha nova aptidão, não nos falávamos há três semanas, eu estava desempregada há oito e sem saber o que fazer há trinta e um anos. Aos trinta e nove, com criatividade e câncer à plenos pulmões, mais um teste vocacional me aconselhou: Artista e ponto. Vinte e três anos haviam se passado, conselhos permaneciam não sendo confiáveis, maços de sextas-feiras eram traficados, a lei da gravidade continuava de marcação com meus seios e a arte nunca foi uma opção para mim.
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