terça-feira, 12 de agosto de 2008

(Des)Confiança, por Samantha Abreu

foto de Rafal Bednarz

Antonia era a melhor vendedora da loja. Adivinhava os desejos das pessoas sem precisar trocar uma palavra com elas. Uma vez, vendeu um aparelho de barbear para uma senhora que queria limpar o tapete peludo da sala. Conseguiu convencê-la de que cortar rente ao chão era o melhor a se fazer.
Sempre se dava bem em jogos, provas e apostas. Pressentia o resultado. Já tinha virado consultora para assuntos de sorte e azar. Sem falar na intuição para grandes acontecimentos: dias antes, percebia o que ia acontecer. As pessoas ficam intrigadas: ‘ela não erra uma, só pode ser mediúnica’. Mas Antonia não ligava muito para essas coisas e deixava o assunto pra lá.

Um dia, chegou do trabalho mais cedo e o encontrou lá, na cama dos dois, suado, sobre o corpo de outra mulher. O susto foi tão grande que, sem pensar duas vezes, enfiou-lhe a faca de pão nas costas.
'Posso não ter previsto, mas cega é que não sou!'
.
.

7 comentários:

Anderson Cádor disse...

Essa mulher que escreve como quem bebe água...

Abraços, Abreu.

Cláudia I. Vetter disse...

Fabuloso!

;***

KimdaMagna disse...

Que vontade indomável de castigar,
Antónia,
de matar...
rejuveneço a cada sua ceifa da vida,

não prevista...

Xaxuaxo

Salve Jorge disse...

Enfia a faca
Rasga as costas
Rasga em postas
Que vermelho cega
É tanta marca
Antônia
Que sua insônia
Terá sonhos do vindouro
E cheiro de amônia...

Yara disse...

Pre-vês?

Tua faca
não é cega

Tua prosa
afiada
corta

*** Cris *** disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
*** Cris *** disse...

Nem tudo é previsível,mas nossos instintos estão sempre presentes.

Amei esse blog!
Um abraço!