quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A mão podre, por Lais Mouriê



A cama não estava mais amarrotada. Embora a solidão ainda dormisse ali, ela arrumou delicadamente o lençol, esticou meticulosamente o edredon e trancou definitivamente a porta do quarto. Não se importou com suas antigas roupas, seus sapatos gastos, suas jóias falsas. Deixou tudo preso em seu velho quarto arrumado. Deixou uma de suas mãos presa à velha foto e resolveu viver sua nova vida assim mesmo. Caiu na vida. Sem quarto e sem uma das mãos, embarcou numa viagem onde ninguém a encontrava, embora estivesse o tempo todo descoberta. Sentiu frio. Ficou com vergonha da chuva que penetrava por sua pele. Ficou com medo e com vergonha de ser quem era, tão transparente, tão etérea. E quando um carro vermelho se aproximou, ficou encantada pela lataria descascada. O quarto continua intacto. E sua mão, já podre, acaricia a também descascada foto.
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2 comentários:

Anderson Cádor disse...

mini conto não-minis...

Salve Jorge disse...

Eu vi a mão
Vi o corpo
E viva a mão
Vidro corpo
Vitreo copo
Vira arpão
Vi ar tão
Torpe
Torpor
Tampão
Tão pó

Tempo...