Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

O coração de Henry Lee, por Gabriele Fidalgo.

(olhares.com)

'Eu não sabia o que fazer.
Eu não tinha o controle de nenhum dos meus sorrisos. Eles saiam sem que eu me desse conta e se entregavam para você. Corriam para o meio da sua rua e entravam pelas janelas da tua casa. Minhas declarações te despiam. Eu não sabia como fazer. Eu não podia evitar. As minhas palavras atravessavam as paredes altas do teu coração. A minha paixão te invadia. Pele a pele. Um olho no outro. Mais um sorriso pulava para dentro da tua boca. Aquecia. Aconhegava. Fervia. Transpirava. Meu amor escorria pelas pintas do meu colo claro. Manchava a toalha branca da tua comoção. Desejava tua complexidade, tua ambiguidade, tua loucura. Escorria pelos pêlos arrepiados e roucos da tua pele branca. Tua cor, teu gosto, tua imperfeição. Atirava-me. Descomportava-me. Descabelava-me. Inteiramente em ti. Construindo linhas ondulares nos teus ombros e nas tuas mãos. Descendo pelo teu calcanhar. Não havia maneiras de te sentir por completo. Não havia tempo, não havia meios. Não havia espaço entre teu dia e o meu. Urgência. Eu mesma te desenhava. Eu mesma te escrevia. Estampava manchas vermelhas em cartas sem data, mas você não vinha. Não me vinha nunca, apenas quando. Chegava e me encontrava assim: surda. Não te ouvia quando não estava. Te queria. Imaginava. Eu não sabia limitar, meu bem. Pulava. Contorcia. Me machucava. Estávamos fracos, apaixonados, sozinhos. Não havia tempo, não havia espaço, não havia grito, não havia, meu bem, possibilidade de silêncio. Eu estava em pedaços. Maravilhosamente completa. Batendo forte em teus receios. Provocando cada uma das tuas desilusões. Lambendo as expectativas. Assistindo tua embriaguez, tua carência e decadência. Enfiando-lhe debaixo do chuveiro. Encharcando-o. Conhecendo absolutamente todos os teus pecados. Amando qualquer que fosse a tua necessidade. Errando com você. Mentindo com você. Chorando com você. Longe.
E quando chegava, meus sorrisos atiravam-se, mais e mais uma vez. Caíam dentro da tua boca e depois morriam. Queimados. Apertados. Estremecidos. Nunca houve espaço. Não havia tempo o bastante para te amar o suficiente. Inteiro. Vivo. Respirando até o final da palavra 'amo'. Morríamos sempre no final do beijo. Entrelaçados. Cansados. Cortados ao meio.'
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9 comentários:

Iasminne disse...

'Um passarinho pousou sobre Henry Lee...'

Em seu livro, não poderá faltar esse texto.
Lindo!

jupyhollanda disse...

"Morríamos sempre no final do beijo. Entrelaçados. Cansados. Cortados ao meio."

Simplesmete...Phoda!

bjos

Salve Jorge disse...

Foi preciso
Um só sorriso
E deslizo
Sem aviso
Pras suas pernas
E as pintas delas

Foram imprecisos
Mil sorrisos
Que matizo
Me martirizo
Acorrentado em cavernas
Sofrendo as seqüelas

Se foram os sorrisos
Tão indecisos
Que até o lirismo
Se curvou
Ao autismo
Que não bastou

Mas o que escapa ao corte
Não é a morte
É a vida
Que no teu porte
Tem sorte
Dessa ferida
Ter sempre estado à mercê
De você...

Cláudia I. Vetter disse...

''(..) nós é Um.(...)''

;)

Cláudia I. Vetter disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Yara disse...

Morrer sempre (e re-morrer e remoer) ao final de cada beijo. Sem tempo o bastante para amar o suficiente. E quanto seria o suficiente?

Leonardo Hoffman disse...

'Eu estava em pedaços. Maravilhosamente completa.'

É tão parte,a parte,tão dentro,tão inteiro.
Não me contive só em brilhar os olhos e desaguei.

beijão,gabi.

On The Rocks disse...

obrigado pela visita no on the rocks.
o blog de vocês é massa.
até mais.

Mara Gabrielle disse...

Ao final do texto, a leitora tem um belo sorriso.
Adoro!