domingo, 31 de agosto de 2008

o se(...), por Juliana Hollanda

(olhares.com)

não provocava dor aquele ponto vermelho no coração. era azul a cor do órgão vital que batia no ritmo da nona (de Bethoven) quando se via triste.
esmaecido, desbotado. um certo tom sem sintonia. só desilusão.
tudo começou num certo dia de céu lilás. ela abriu os olhos, fitou a janela... quis abrir as cortinas para que o sol secasse os lençóis frios por causa do ar condicionado que ela esquecera ligado durante a noite. sozinho.

tinha levado a alma para passear na madrugada.

ela não estava lá naquela manhã que teria sido uma manhã comum. teria sido comum se a rotina permanecesse. os olhos ainda fechados, o caminha para a banheiro, o banho, o escovar de dentes... todo aquele mundo de coisas que fazia todos os dias.

se ela tivesse mantido a rotina...

há tempos havia esquecido quem era e no escuro perambulava sem pensar. pelo quarto nos gestos, na cor da maquiagem... não pensava. na textura macia das roupas... não.
não pensava. todo dia era uma falta de inspiração. tudo mecânico. dia após dia o cuidado inconsciente de ser invisível.

só que naquela manhã... o diferente aconteceu.

ela abriu as cortinas, trocou de sabonete, pintou os olhos, passou blush e colocou um vestido florido. fez limpeza na bolsa. trocou de bolsa.

...

hipnotisada pelos raios do sol olhou-se no espelho antes de sair.
tudo se fez novidade.

naquela manhã de abril caminhou até o trabalho. observou as árvores, os buracos na calçada, o layout dos prédios. sentiu o perfume de seus próprios cabelos e se disse flor. sentiu as chicotadas dos cabelos com o vento em suas bochechas. ela reaprendeu a respirar naquela manhã que teria sido, comum.
...
seu coração pulsava em ritmos variados e recém descobertos. ela estava em sintonia com ela mesma e com o coração dos transeuntes que atravessavam os mesmos sinais.
ela sentiu fome. há muito seu estômago não bradava tão fortemente por comida. ela lembrou-se que desde os cinco anos não sentia aquela incontrolável vontade por uma comida simples feita com cuidado.
há anos seu paladar resumia-seem comida congelada mal requentada. o que resumindo, resultava em almoços e jantares meio quentes, meio gelo. ela não se importava.
...
há muito não sabia. nãp sentia. não se via. tinha esquecido suas vontades, seus gostos...
ela não tinha costume de tomar café de manhã e ela estava com fome naquela hora. ainda nem era de tarde.
ela se pôs a lembrar de Paris. Pain ou chocolat, tarte tatin, croissants, fromages...
ela sem lembrava dos nomes das comidas, mas ela não sabia falar francês. nunca tinha ido à França; ou será que tinha?
...
diante de tantas descobertas ela lembrou-se que tinha levado a alma para passear de madrugada. ela lembrou-se que durante o passeio tinha cruzado com várias amigas. ela assustou-se. será que a alma dela tinha ido parar em outro corpo e a que estava com ela não era a dela? não era ela; ou teria sido um dia?
...
ela então parou.
...
desistiu daquele dia de trabalho. ligou e inventou uma desculpa para o chefe.
...
chegou em casa. a sensação de liberdade continuava, mas... tudo era ainda muito estranho.
o coração tocava uma música diferente. não era mais a nona, nem a décima, nem axé, nem punk, nem rock n´roll. não era emo. não era mpb. não era nada do que ela se lembrava de conhecer. nunca. ela nunca tinha ouvido aquele ritmo.
aquelas palavras desencontradas numa voz grave de mulher. Believe. after. life. love.

o que seria aquilo?
...
resolveu pesquisar. ligou a tv. o controle sem pilhas.

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