quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Em sua taça, por Lais Mouriê


Um brinde. A tudo que não fomos antes. A tudo que ficou escondido, naquele sofá quebrado onde desfizemos nossas semelhanças. Foi ali que derramei todo meu champanhe. Você não bebeu o suficiente de mim. Você não foi o suficiente.

Brindemos ao pó na estante de livros. A tudo que não lemos, de tanto tempo perdido na cama. E você nunca me encontrou, mesmo tanto dentro de mim. E de tanto você dentro, o teto do quarto ficou rabiscado pelos versos desconexos projetados pelos meus olhos, loucos para te decifrar.

Um brinde bêbado ao nosso desencontro apertado. Ficaram na minha lingerie algumas de suas pintas e restos de sua pele, que não davam conta de te esconder. Deixei você menos falso e fiquei excedida de tudo que você nunca foi.

Quero brindar à minha solidão acompanhada. Quero que nossas taças toquem pelo meu amor desfigurado. Quero um brinde, último e imoderado, gotejado pelo meu sangue na sua taça. Esqueça de você enquanto embebeda-se de mim.

4 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Lais, arrasou!
E eu senti cada palavra! De verdade!

Esse você não escreveu, chorou.

Beijos, querida.

Salve Jorge disse...

Era pra esquecer
E como não esqueceu?
Ante o camafeu
Creio que se perdeu
Pois era pra ver
E cego
Esquecido
Perceber o colorido
Do teu alarido
Havento peitos comprimidos
E caminhos colididos
Que só a tua embriaguez carrego
Não nego
Estou vestido
Do teu poderia ter sido
Afogado na sua taça
Enquanto você passa
Trazendo graça
Ao meu afã indefinido...

joao de miranda m. disse...

muito bom, como sempre.

Anônimo disse...

Poucas palavras em muito corpo!
O feminino incotido insiste em tranbordar pelos pouco poros epidérmicos.
Ah, e o homem? Este estará condenado a te fazer sempre incompleta, pois, é verdade, esperas com uma falsa expectativa!
A potência do corpo e a farsa da palavra! Vá adiante neste paradoxo cativante! Certamente, há de nos brindar com mais belos poemas!