quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Embora, por Lais Mouriê

O mundo girava exatamente igual quando ela foi embora. As vinte e quatro horas ainda eram vinte e quatro horas, mas não para ele, que sentia o peso da lentificação descompensada dos dias sem ela. Sem ela, sem a selvageria da sua sexualidade exagerada e insatisfeita, sem a bruma vermelha das suas palavras quentes e a ausência doída da mão acalourada sobre seu corpo claro e mordaz.

Quando ela foi embora, assim como o sol, despediu-se dele o calor e a rotina fora de hora, de segundas-feiras com gosto de sábados castanhos e perfumados por xampu. Ela foi embora e a sua presença ficou, deixando-o naquela solidão acompanhada, onde a loucura costuma fazer sua casa.

Os dias corriam lentos e alterados. Frios e doídos. Todos crispados pela sua covardia. Ela foi-se, embora...

6 comentários:

Salve Jorge disse...

Embora
O mundo perdurasse lá fora
Toda hora
Parecia uma mesma demora
Agora
Que ela tinha ido embora

Inerte gangorra
Particular Gomorra
Tudo a mesma porra
Corra Lolo, corra
Pois não há quem o socorra
Já que escolheste ficar com a borra...

osátiro disse...

Exacto: porque a deixou ir embora?
Os dias ficaram lentos e doídos, naquela solidão.
As relações humanas são, por vezes, muito mais introspectivas do que o simplismo irrealista quer fazer crer...

*** Cris *** disse...

Ela foi embora...coragem ou impulso?
Um abraço!

Conde Vlad Drakuléa disse...

Pousei...
"Espero que ela volte"...
Voei!

Three Love´s disse...

Que lindo texto,
retrata tão virilmente a dor da solidão...

é sufocante perder a delícia de "segundas-feiras com gosto de sábados castanhos e perfumados por xampu"...

b.e.i.j.o.s.

Gabriele Fidalgo disse...

'Sem ela, sem a selvageria da sua sexualidade exagerada e insatisfeita, sem a bruma vermelha das suas palavras quentes...'

A solidão ficou para quem a viu partir, dessa vez.

você é ótima, minha amiga!