terça-feira, 23 de setembro de 2008

Palavras Amarradas ao Nó, por Samantha Abreu

foto de katarzyna widmanska
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Como se realmente tivesse importância, ele parou à soleira e me perguntou como eu iria embora. Respondi com um olhar, apenas. O nó apertando a garganta me prendia as palavras. Nada mais restava ali depois de tantos anos. Apenas móveis a serem divididos, cds repartidos e lembranças apagadas.
Eu permanecia muda, mas continuava a olhar para ele, fazendo fotografia daquele momento. Nenhuma outra recordação, ainda que boa, seria mais forte do que aquela: a do desprezo. Agora, realmente, não mais importava como eu sairia dali, desde que o fizesse o mais rápido possível.

Em todas as vezes que a separação me passou, eu treinei falas de um diálogo dramático, construí discussões imaginárias e reconciliações utópicas. Mas ele se mostrava tão incomodado, que ficou parado esperando que eu encurtasse aquele sofrimento e fosse prática como nunca fora antes. E eu não conseguia, não tinha de onde arrancar o necessário gelo, a indispensável calma.
Esperei que ele dissesse uma única palavra de esperança, que ele deixasse escapar uma simples expressão de amor adormecido e que uma fagulha ainda permanecesse. Mas ele era um iceberg.
Naufraguei.
Desci as escadas com o peso das malas, o peso da alma e o peso da dor ficando insuportável a cada lágrima. Eu me arrastava e, embora tudo estivesse comigo, minha vida tinha ficado lá trás, coberta de neve.
E então me doía o medo da saudade, que já se fazia imediata.

Fui levada por um táxi, enquanto pedaços foram se perdendo pelos degraus desde o terceiro andar.
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2 comentários:

Robson disse...

Acho esses pedaços nunca são recolhidos né?! ninguem que passa os vê, os sente, os entende...são visíveis apenas aos olhos nus dos que foram despedaçados.
Bj triste

camila_vicencio disse...

só de ler eu senti... por isso mesmo que eu adoro o que vem de vc nega!!!!

vc toca de verdade... só com palavras...

beijão, sucesso!!