quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Noite Desconexa, por Lais Mouriê

Escorei meu copo de uísque nos retalhos de madeira da cama que quebrei, e onde dormi acordada toda a noite. Quebrou-se também algo em mim, inexplicavelmente sólido, quando caí de meus sonhos, na madrugada.
Só porque não sou rasa, afundei em mim destroços do hotel demolido nas férias longínquas e, assim, poder viajar para dentro na hora que bem entendesse. Visitei porões mal-assombrados do meu peito, percorri avenidas humanamente abandonadas, revi a solidão, que passeava despreocupada pelo céu de minha boca.
Arranquei a roupa, fiquei nua novamente, tirei dezenas de fotos e as colei em seus olhos. Fiz-me eterna para você. Colorida de verde, vi por você o que nunca suspeitou enxergar: Esperanças? Boas novas? Árvores frutíferas em pomares amarelos?
Joguei-me inteira pelo buraco da fechadura e sobrevivi. Descobri que nunca ousara amar-me, quando li seu diário secreto publicado no jornal matutino. Desamei-te a partir de então.

O copo de uísque, quase vazio, sobrevive, escorado em minhas coxas. Falo qualquer besteira para o vento gostoso que entra pela janela. Rio desconexadamente para o bicho de pelúcia, que, calado, pronuncia verbos amorosos.

Só então acordo dormindo para mais um dia vazio.
Pintura: Francis Bacon

4 comentários:

Iasminne Fortes disse...

Porque eu me vi caindo dos meus sonhos, nas madrugas... longas.
E continuo, mas, um pouco mais densa que ontem, confesso.

"Joguei-me inteira pelo buraco da fechadura e sobrevivi."

adorei, Laís!
;*

Salve Jorge disse...

Esquece a corda
Esquece que acorda
És.. aquece que discorda
Discórdia
Aborda
Borda
Desaba
Maré braba
Só acaba, Sorocaba
Na pirueta
Sem muletas
Cingem
Pois na origem
O bom era a vertigem
E não a idéia de voar...

Conde Vlad Drakuléa disse...

Bravo, genial!

Gabriele Fidalgo disse...

Maravilhoso, amiga!

Bem feminino e forte. Ao seu estilo!

beijos. ;)