segunda-feira, 24 de novembro de 2008

ANTES DO PRIMEIRO SUTIÃ, por Karla Jacobina


Nasci mulher e meu pai caiu em lágrimas. Primeira filha mulher e última tentativa: também. Sempre disse satisfeito com a preferência da cegonha, no entanto, ganhei uma camisa do seu time antes do primeiro sutiã.

Sem time, menor de idade, mas com uma camisa oficial, troquei os episódios da Barbie pelas transmissões do Brasileirão.

Aprendi a colocar os pulmões pra fora todas as vezes que a camisa igual a minha marcava gol.

Na verdade, eu não vestia a camisa do time com a camisa igual a minha. Eu vestia a camisa do homem que me deu braços para vestir a camisa que eu ganharia logo na seqüência.

A vida mudou de campo, a camisa furou no sovaco e meu pai foi morar mais distante do que um tiro de meta.

Sem time e maior de idade, cabe no meu peito a camisa de todas as torcidas com camisa do mundo. E um pacaembú de saudades do meu pai.

4 comentários:

Cosmunicando disse...

lindo... saudade de pai deixa a gente menina.

Janaina Amado disse...

Este texto, leve e sensível, me comoveu. Parabéns!

clayton disse...

Faço minhas as palavras da Janaína...beijo, Karla!

Caito disse...

è incrível o poder que o futebol exerce sobre nós e nossas relações, especialmente quando essas coisas se iniciam na infância! Muito legal o texto, bjo!