segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Despedida em negrito, por Karla Jacobina

Depois que nossas mãos se desgrudaram nos degraus do ônibus, terminei de subi-los ainda com os nossos olhos dados. Empurrando uns e outos, parei diante da fresta que zelava pelo seu rosto. Era um rosto de despedida, daqueles que trazem lenços brancos no semblante.

O sinal abriu e o motorista deu partida. Meu peito minguava enquanto meus olhos cresciam acompanhando seu rosto percorrer as janelas do ônibus e por fim, se pôr na janela mais oriental.

Nós já nos despedimos tantas vezes e ainda assim, a cada chacoalhar de mão por detrás do vidro, sentia o meu sangue coalhar e azedar o gosto da despedida.

Sentada, com a mochila no colo e os fones no ouvido, ouvia uma de suas canções favoritas que se pergunta tanto e a todo tempo, que chega a perguntar até no nome "Por que te vas?". Eu sabia porque ia, só não entendia porque ia tanto. O azedume da despdedia não era o meu sabor predileto, mas me alimentava, ainda que de uma forma estranha.

Lágrimas de cândida desbotavam os meus olhos. Descoloridos, se tornaram incapazes de reconhecer minha rua. A linha de chegada, a do Equador, a de partida, eu não enxergava. Eu não via mais os lenços brancos, nem a saudade atrás da foto três por quatro. O negrito doído da palavra despedida, a cândida havia apagado.

4 comentários:

*** Cris *** disse...

Uma despedida é sempre uma despedida...
Um abraço!!!

Conceição Pazzola disse...

Triste e amarga é a despedida.
Resta sempre a ilusão que sonhamos, não é verdade.
Beijos,

Conceição

Gabriel Ilário Lopes disse...

moça, essa doeu...ainda mais porque eu li ouvindo chico buarque...minha nossa! "olhos dados", que lindeza que é isso!

Gabriel Ilário Lopes disse...

moça, essa doeu...ainda mais porque eu li ouvindo chico buarque...minha nossa! "olhos dados", que lindeza que é isso!