domingo, 9 de novembro de 2008

Todos os nomes, por Juliana Hollanda

ele tem um nome. um nome que pode ser todos ou qualquer um. se ele vai passar na entrevista de emprego? não sei. se vamos nos esbarrar outra vez também tenho minhas dúvidas, mas o fato é que há muito não via um menino tão bonito, simpático, com cara de bem nascido e gentil, nervoso. tão novo... ah! o frecor da juventude.


do alto dos meus 30 não me queixo da idade, sinceramente estou muito melhor que há cinco e esta idade me fez descobrir e constatar muitas coisas. sinto-me mais mulher, mais segura, mais feliz, porém, do lado dele, que pode ter todos os nomes do mundo, hoje no ônibus indo para entrevista de emprego, nervoso com o trânsito, pois iria se atrasar, mas falante gentil, bonito eu pensei por um momento.. ah! meus 18...

ele não deveria ter mais de 20 anos e levantou para que eu sentasse na janela (ofereceu-me o lugar) e depois começou a puxar papo; perguntar do trânsito, falar do "new design" dos quiosques da orla, que estava indo para uma entrevista de emprego que já estava atrasado, a perguntar minha opinião sobre continuar no ônibus ou pegar o metrô... e olha que eu nunca dei muito ou algum papo para estranhos.


não posso dizer que pintou clima, porque não pintou. de repente ele achou minha cara confiável ou eu sou parecida com a irmã qu eu nem sei se ele tem ou com a mãe, a avó. ele tinha cara de "playmobil" e na verdade eu sempre gostei de homem com cara desses bonecos. ele parecia com o Tom Cruise novinho e sorridente naquele filme em que ele dança de cueca e camisa social pela sala e esse sempre foi na verdade o "meu tipo".


meu primeiro namorado foi assim, o segundo também e me casei com um narigudinho assim também(que depois virou o maior monstro do pior desenho animado) - aparências, às vezes enganam mesmo, fazer o que, né?- enfim... todos altos, branquinhos como algodão, cabelos lisos e negros, magros e com grandes narizes.


as entresafras sempre distoaram das regras e a orquestra desafinada da minha vida, ou melhor, meu gosto para homens segue assim; só que hoje estou com o homem mais diferente de todo o meu gosto, o oposto do oposto de tudo que pode ser imaginado por vocês e incrivelmente estou realizada como nunca estive. esta é uma entresafra que virou safra e mudou o meu gosto para homens, aliás, fez com que ele estacionasse, pois acredito que ficarei com meu namorado por muitos e muitos anos e até acho que casarei de novo e terei filhos com ele. hoje estou feliz como nunca estive. satisfeita e mulher como nunca fui.

sei que não é necessário justificar felicidades. não é necessário justificar minha felicidade apenas por ter tido uma viagem de ônibus até o trabalho ao lado de um meninho fofo que eu nunca pegaria nem se eu fosse solteira, pois já passei da idade.


em suma, não sei os motivos que me levam a escrever este texto na quinta para publicar no domingo, não sei se foi por ter me sentido velha, por nunca falar com ninguém no ônibus, leia-se nem com a mulher que está em pé batendo com a "#@%$" da bolsa no meu ombro a cada solavanco, por ter me achado velha, por ter me lembrado que eu sempre gostei de menino assim, por lembrar de Tom Cruise novinho e sorridente antes de Kate Holmes, Suri ou da cientologia, por me lembrar de Bernardo, meu primeiro namorado, não sei mesmo os motivos que me levam a fazer esta crônica-diário-lembrança-desabafo. serão os 2 meses sem terapia ou o medo da depilação hoje a noite? a alegria em ir ao oftalmologista e não ter que mentir dessa vez para ganhar óculos, pois que eu vou ganhar óculos (hoje) sem mentir é fato! - porque não enxergo mais o número dos ônibus a noite, ler para mim tem sido torturante com olhos lacrimejando e lágrimas borrando as entre linhas. não sei se é alegria demais, lembrança demais, hormônio demais ou de menos, não sei o que é esse texto e nem se vocês vão ter paciencia para esta catarse, mas a verdade é que precisava falar isso para alguém e pronto, vocês foram os escolhidos.


e para finalizar: o que aconteceu? nada de nós dois saltamos do ônibus ], ele esqueceu a entrevista, eu dei uma desculpa no trabalho e fomos para o motel mais próximo. não aconteceu nada. absolutamente nada demais. foi tão lúdico... infantil mesmo, desinteressado e leve (talvez ele tenha sido meu filho, namorado, marido, pai em alguma outra vida) só avisei em qual ponto ele saltaria, desejei boa sorte e sorri.



P.s- Ele pode ter todos os nomes, mas na minha cabeça ele se chama Gustavo.

3 comentários:

Cosmunicando disse...

é... os ônibus têm dessas coisas - e as mulheres também =))

(adorei rever o Cruise nesse vídeo)

Lais Mouriê disse...

É, ele se chama Gustavo!

Mari disse...

amei o texto! hahaha típico de mulher! também gostava desses tipos Playmobil... hoje variei pouca coisa :P