segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Lorota, por Karla Jacobina


Um dia me contaram que eu era eu e ser eu era não ser ele.
Um dia me contaram que eu tinha nome e que eu era o nome mas o nome não era eu, porque se o nome fosse eu a lista telefônica usaria óculos pra perto.
Um dia me contaram que eu era bela, mas que para ser bela eu teria que ser humilde, senão eu seria feia. Logo, meus seios só seriam belos quando caíssem, à procura da humildade no carpete.
Um dia me contaram que eu era poeta, mas que para continuar sendo poeta eu teria que falar de mim fingindo ser outra. E toda vez que falei de mim por outras bocas o medo de morder a língua não foi de mais ninguém.
Um dia, enquanto me contavam outra, eu parei de mentir pra mim. Só sobrou a lorota pra contar história.