domingo, 14 de dezembro de 2008

Quando eu deixar de te amar, por Juliana Hollanda

quando eu deixar de te amar estarei vestida de lilás com uma margarida enorme no cabelo na beira de um riacho jogando pedrinhas na água e pensando em todas as vezes que sofri com o coração apertado por medo de te perder quando você fazia alguma grosseria comigo.

vou pensar em todas as vezes que lágrimas de tristeza rasgaram meu rosto com a precisão de um cirurgião com bisturi nas mãos. vou lembrar de todos os momentos em que fomos felizes na cama e fora dela e de todas as vezes que você desconfiou de mim e, também, de todas as vezes em que você me magoou com isso.

vou jogar pedrinhas no riacho para cada orgasmo, cada sorriso, cada caminhar de mãos dadas e por cada x-tudo que compartilhamos. por todas as idas ao cinema, praia e por todos os passeios no bosque enquanto seu lobo não vinha. vou colorir todos os momentos alegres e congelar meu coração e meu cérebro para que em nenhum momento eles sejam esquecidos. os momentos tristes muito tristes vou fazer questão de esquecer.

estarei à beira de um riacho de vestido lilás e com uma margarida nos cabelos numa tarde qualquer de chuva ou sol. essa vai ser a pior passagem da minha vida, mas eu vou festejar, celebrar este deixar de te amar.

vou pular, rodopiar e dançar. vai ser um dia tão miserável...

e o meu vestido ficará sujo de terra e meus pés enlameados e meus cabelos embaraçados e meu rosto com mais marcas e meu corpo com mais tatuagens. eu nunca vou esquecer das vezes em que a gente chegou ao orgasmo juntos e nem das vezes em que choramos um dentro do outro. não vou esquecer do seu cheiro quando eu deixar de amar e nem do seu mau humor.

deixar de te amar é imperativo!

eu vou deixar de te amar e de vestido lilás vou jogar pedras na água e esse vai ser o dia mais triste da minha vida. vai ser quase como a minha morte. vai ser meu suicídio, meu corte nos pulsos meu comer bombons com veneno. vai ser um dia feio, triste, sujo e eu vou me sentir uma fraca por não ter conseguido te amar por mais um dia e eu vou querer esquecer o minuto em que você virou aquela esquina depois do adeus e eu sei que você vai me assombrar todas as noites em todas as camas e com todos os homens com quem eu estiver. eu vou sempre imaginar você com outra e vou sempre perceber um defeito no outro que você não tinha e nunca mais vou ver o seu sorriso e vou roer as unhas de desespero e me viciar em remédios tarja-preta e desejar você todos o momentos, mesmo deixando de te amar.

um dia eu sei que não vou te amar mais, mas vou perder o meu amor. não vou mais ser inteira, intensa. eu vou ter deixado de te amar e vou me sentir uma bela duma filha da puta, mas vou estar à beira do riacho jogando pedras na água com o coração atravessado por uma flecha como aquelas tatuagens daqueles marinheiros da antiga.

eu vou deixar de te amar e vou morrer sangrando baixinho as juras de amor despedaçadas e as paredes mal pintadas, as portas batidas, velas derretidas e todo o remédio para mosquito borrifado na penumbra do quarto.

eu vou maldizer todos os dias de sol e as noites de lua cheia e os casais andando de mãos dadas passeando no parque dividindo um sorvete de casquinha. eu vou ter deixado de te amar e nada mais vai fazer sentido; só o meu vestido lilás sujo de terra, meus pés enlameados e as lágrimas que não vou mais chorar.

4 comentários:

Beatrice Jasmin Noire disse...

desamar:

dester e desatar-se...

Gabriele Fidalgo disse...

'essa vai ser a pior passagem da minha vida, mas eu vou festejar, celebrar este deixar de te amar.'

Texto muito, muito profundo. Maravilhoso. Daqueles que transbordam e a gente lê com a mão no coração.

Deixar de amar a pessoa tão amada, é quase como um ritual sagrado.

Beijos!

Luciana disse...

Dilacerador!

Muito, muito bom.

Cosmunicando disse...

demais seu texto Juliana!