terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sonhos Alternativos, por Samantha Abreu


Gastava todas as suas economias comprando revistas com fotos de namorados. Recortava e montava seu próprio álbum com os mais belos homens e mais desejados maridos. Andava pra todo lado com o tal álbum na bolsa.
Duas a três vezes por semana, ia a uma loja de noivas e em cada uma usava a foto de um noivo diferente. Já oferecia logo: ‘quer ver a foto dele?’. Arrancava com orgulho o recorte do bonitão e se gabava. Quando a vendedora dava trela, ela contava uma linda história de amor. Guardava sempre uma história triste e sofredora para os dias de amargura, pois conseguia até deixar que algumas lágrimas caíssem disfarçadas.
Experimentava, ansiosa, os modelos mais caros, mais chiques e mais pomposos. Desfilava a tarde toda pela loja vestida de noiva. E realizada.

Em casa, o quase marido a esperava nervoso e, aos berros, pedia pela janta. Ela já tinha ensaiado várias vezes para falar sobre casamento e vestidos brancos, mas ele não deixava que ela sonhasse com tamanha banalidade. O que importava era que as contas estivessem pagas. Cortava logo o assunto. Comia silencioso e caia na cama, cansado.

No outro dia, logo pela manhã, ela inventada um compromisso qualquer e aproveitava carona até o centro. Parava na primeira banca e se deixava, mais uma vez, levar por sonhos podados, abafados, sufocados.

3 comentários:

Thiago Quintella disse...

amores não correspondidos, aos nossos olhos!! demais a crônica!

Thiago Quintella disse...

amores não correspondidos, aos nossos olhos!! demais a crônica!

Aline Aimée disse...

Ah, que triste! Clarice já dizia: "eu quero uma vida inventada!" Acho que a tristeza joga muita gente no bovarismo...
Viver a novela de si mesmo pra esquentar o sangue e amortecer as dores. Beijoca!