terça-feira, 29 de abril de 2008

Paupavelmente, por Samantha Abreu

.
Tuas mãos
..D
....A
.....N
.....Ç
....A
..M
em mim, e
a____travessam-me
a derme.

Eu,
res i i i sto
até quando posso,
.
.
e desisto.
.
.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

ME MOUSSE, por Karla Jacobina

.
Eu me mousse

Em toda tanga

Quando falo

No teu falo

Sem-vergonhices caladas

De boca caldada

E bem aberta.



Fotografia: Lilya Corneli
.
.

domingo, 27 de abril de 2008

Sinto, por Juliana Hollanda

(olhares.com)

a guitarra toca acordes irreais na minha vida de música de led zeppelin desafinada
quero ser bossa nova nos teus ouvidos de eletrosamba nervoso
cantar ópera,
lacrimejar bochechas,
escorrer vontades lágrimas
borrar meus olhos
encantar serpentes vivas
alimentar mortes cegas de não ver você
aparecer na madrugada alimentícia
reverter pensamentos sobre mim
enriquecer cérebros famintos
cortar pés descalços
quebrar unhas sem esmalte
enlouquecer destinos
desfazer novelos de lã idéias
carretel de linhas para tecer palavras em frases
desnudar a alma
tirar o sutien
rasgar minha calcinha para você me invadir com tesão e violência
possuir-me na sanidade da alma
transportar-se para uma dimensão mútua
misturar pensamentos
fumaças vãs

transformar sacanagem em desejo puro de ter você.

os desencontros vão editando destinos
destinos não devem ser acaso
e no ocaso da falta de sol
o sol se põe longínquo do teu olhar
olhar longínquo sem foco esquecido do meu
no prazer misto de vontades puras
vontades puras de exalar perfumes de gaveta em poros pulsantes
poros pulsantes que conversam invisíveis
vontades escondidas no sobretudo do amor inexistente com medidas
comedido sem tamanho régua
nas regras que você inventou pra gente viver
nesses dias de telefone celular os números discado não são reais
não "send" no teu cel de sangue azul.

acordes desafinados no ritmo dançante
seu gênio forte discute atitudes minhas
seu controle aguça minha obrigação de desobedecer suas ordens
desobedecer sua voz carente de paixão desencontrada
e amanhece o dia de amanhã
hoje você não veio a minha procura.

sinto saudade de você
sinto vontade de te ver
sinto, mas vou enlouquecer
sinto você
sinto...
muito!

sábado, 26 de abril de 2008

Sil Falqueto


No manto azul marinho
bordado de estrelas
eu bordo você
ao alcance da minha boca

Invento um bacuçu
um rio
e brisa
(e um vagalume
criando estrelas)

À flor da pele
grãos de areia
e nuvens.

Martha Galrão


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Entrega, por Rita Santana

.
Afundo os meus navios
Olhando o quanto sou fogueira de velas muitas.
Marca na testa é sinal de deusa Musa.
Limpo o chão da casa dos meus súditos,
Colho as ervas finas do dia,
Ancoro repolhos no molho branco,
E digo não, quando quero.
Ademais, quem disse que eu presto?
Protesto demais pra uma coisa fêmea,
Memória me diz:
Lugar de mulher é no silêncio,
Tormentas, é homem quem sofre.
Estou em cada comboio de gente que busca alento em lugar,
Arreio, em comarcas, o meu assombro
Dessa lida de malas abarrotadas de pedras.
Minha mãe nem sabe da mesma sina.
Vontade sinto de cortar caminhos
Por onde passa esse rio vermelho.
Cansei-me, há muito, de ser,
Só trago continuísmos de lesmas.
Recuso-me a dormir calada,
Alada, voaria até o sol para derreter-me as asas.

Rita Santana

.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Sentido das Sombras, por Samantha Abreu

foto de Patricio Suarez
.
Não sei, mas quando acordei pela manhã essa sombra já estava aqui. Parada ao lado da cama, olhava-me misteriosamente como se tentasse interpretar o sonho que tive. Talvez, ela mesma fosse um sonho. Aquele da semana passada, quando no lugar da sombra encontrei um cachorro. Joguei no bicho, deu cobra. Começo a acreditar que não sei significar minhas viagens e minha intuição não anda nada aguçada. Acho que fui abandonada pelo espírito do universo e, agora, estou aqui, sem saber o que fazer.

Se eu levantar da cama, tenho medo de ser agarrada por esse vulto sem sexo, que me dá calafrios. Prefiro ficar deitada, esperando qualquer sinal de esclarecimento. Do mesmo tipo que me fez sacar que você realmente estava indo embora naquela noite. Seu olhar perdido, fixo na parede através do meu corpo, como se eu não existisse. Entendi o verdadeiro sentido da indiferença.

Queria ter tido essa mesma percepção escancarada quando vi aquele cachorro e, agora, essa sombra. Preciso entender o que desejam ou pretendem. Embora, de repente, eu esteja apenas enlouquecendo por conta dessa busca alucinada por uma mudança urgente. Sei que não mudarei nada enquanto não entender tudo isso. Só levanto dessa cama quando alguém me explicar pra quê devo viver, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, sem saber porque diabos você fez as malas só com suas roupas, mas deixou tudo vazio por aqui.

Pode ser aquele cachorro ou essa droga de sombra negra. Não importa quem me traga a resposta. Mas, até lá, daqui não me levanto.
.
.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

ISABELAS, por Karla Jacobina

Não
foi
Isabela

quem
caiu
da
janela.

É
você
quem
se
atira
da mesma
da mesma
da mesma

MANCHETE


tododia

sem chances

de sobre vivência.

domingo, 20 de abril de 2008

Amanhecendo Amanhã Feliz, por Juliana Hollanda

.
Fecho o fecho éclair; espécie de fechadura de bomba de chocolate.
Minha calça jeans sem zíper. De botão. Fecho fácil de abrir e fechar. Fecho que perde a razão de existir quando suas mãos tocam na minha cintura.
Sobe logo um calor urgente, explodem fogos de artifício hormonais e em ebulição minha pele espera o vulcão acordar com seu toque forte e macio.
Amanhã vou amanhecer para te ver de noite.
Esperando que desse encontro amanheçamos na próxima manhã.
Se for para não amanhecermos; tudo bem. Tudo bem, também. Meu bem.
Meu bem, não importa se dormimos ou acordamos.
O que importa é não deixar a porta bater.
Impedir que a porta bata é deixar que o amor respire e escape de ser sufocado no quarto sem janelas.
.
.

sábado, 19 de abril de 2008

Meu silêncio
fala de desertos e
inexplicáveis pássaros
que se apagam
e redesenham-se
em carne de sonho
e areia.
O vento
é meu canto de sereia.

Martha Galrão

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sistema: /Co-r/Rompido

Da necessidade dos ajustes para integração ao Sistema:

<. Relato:_ .>

Processamento ideal: Dual Cor_e.
<< .Há de se ter cuidado com o que se programa. >>

[Uma mentira repitida mais de cem vezes, passa a ser crível o suficiente para ser considerada atualização:
O Sistema sempre absorve_>
://abrem-se_versoes_para_englobar_os_.desajustes./
Os novos feeds serão atualizados em real time pelos lacaios:
[worms:] = < .grãos de comandos. >
Versão periférica: .√10−6.
Para os rompantes > .penalidade.
>>_Mudanças nos códigos serão consideradas vírus.
Sistematicamente: achatados.

Extensões: ://.Aşk% e .Storge%/_>
<<. desatualizadas/nao_executáveis_ .>>
Atualização: //.prag-ma%/.
Comando final:
> System_ > Shut Down.]
.
.

terça-feira, 15 de abril de 2008

(IN)CRÍVEL, por Samantha Abreu

.
Essa estranha beleza
em racionalizar.

Ser dolorido,
mas ser verdadeiramente.
Tocar tua carne nua,
e saber-te
onde, saber-te quando.

Não me parece mais encantado
nosso mundo.
Não tenho mais aquelas
fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim
tão boa
para amores insólitos.

.
.
.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

ÁGUA ABAIXO, por Karla Jacobina

.

Na sala de espera de uma entrevista de emprego, escutou dos fones de ouvido aquilo que nunca ouviu. Suas lentes se enchentaram, seu nariz entopiu e a oportunidade por água abaixo, Cláudia viu.

Fotografia: Lilya Corneli
.
.

domingo, 13 de abril de 2008

Anjos e sonhos, por Juliana Hollanda

(olhares.com)
Sonhar é preciso.

Mola que impulsiona os passos para frente
Traçar um caminho
Seguir de cabeça erguida

[ACREDITAR!]

Aceitar que pode ser
Que é possível!

Em algumas horas temos asas
Em outros momentos;
rodas para atravessar a estrada
por mais que chova e os pneus não sejam antiderrapantes
é importante olhar para frente

[FOCAR.]

Por mais que faça um sol escaldante e seja possível fritar um ovo na nossa testa
é importante estar de pé
em algum lugar terá uma ponte que vai olhar pra sua cara e falar:

-Sente-se. Agora você pode descansar. Você chegou no meio do caminho.

Logo ali tem um riacho. Lave o rosto e beba água fresca. Sua corrida começa de novo quando você passar por mim.

Você ainda vai se cansar bastante. Viver é um eterno cruzar de pontes.

Sonhos nunca acabam. Eles adormecem, se reciclam ou se realizam.

Todos os sonhos são reais.

sábado, 12 de abril de 2008

.
Semana passada, o carro estava com um barulho
estranho. O mecânico disse:
Rolamento do Tensor da Correia do Alternador.
Ouço vozes, fico aflita.
E ninguém me diz o nome do que sinto.

.
.
.
Martha Galrão
.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cafetina da Piedade

.
Aas retinas da Consciência:

Dó_ença vale o preço da labuta-
Dia desses, pequena meretriz acordará para o preço de sua existência:
{Vale o quanto pesa-}
Sus(!)_Tenta ?!
.
.
.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Milena, por Cida Pedrosa

.
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo
.
.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Sonhos de Criança, por Samantha Abreu

foto de Alina Lebedeva


.....Aquele corredor entre os muros que ligavam o quintal ao portão pela lateral da casa, lhe era assustador. Era um corredor cheio de fantasmas. Todas as vezes que saía na porta para seus afazeres diários, parava por alguns instantes e se perdia olhando naquela direção. Era assombrosamente tomada por aqueles pensamentos. Nenhuma força que fizesse para evitá-los era suficiente, então, ao se entregar, fechava os olhos.

.....Via-se passando pelo corredor, a passos lentos. Era tão criança que, quando olhava para cima, a altura dos muros os faziam intransponíveis. Suas ilusões de criança eram criadas ali. Corria o dedo pelas laterais e sentia a aspereza dos tijolos sem acabamento. Ainda de olhos fechados, ia seguindo: um pé na frente do outro, e os dedos acariciando aquelas paredes, relembrando com melancolia aquele espaço que já tinha sido só seu. Seu corredor de ilusões lúdicas. Para ela, criança, era ali que nasciam os sonhos que, mais tarde, seriam abafados por sua essência louca de mulher adulta.
.....Agora, estava ela, envelhecida pelo tempo, acordando e se encontrando parada, mais uma vez, olhando aquele lugar. E o significado daquele corredor, agora, era outro: assustá-la e possuí-la por demônios que a seguravam pelas pernas enquanto passava, lúcida, a passos urgentes. Seus sonhos infantis não tinham sobrevivido à sua alma adulta, ríspida e vencida.
.....Sonhos de criança assombram quaisquer pessoas normais.
.
.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

E DAÍ SE IEDA DEU? por Karla Jacobina

.
E daí se Ieda deu?
Tudo
Dedo
Duro
Quanto
Deu, mais deu
Mais tanto
Que Iedoideceu
E daí?
E daí se Ieda deu?
Cem velas pra São Judas Tadeu
A alma pro Diabo
Ieda nem vendeu
Ieda deu
De graça
Nem pirraça
Ieda fez
Deus meu!
Mas, e daí?
E daí se Ieda deu?
E daí se Ieda deu!
As calças que tinha
O que tinha dentro das calças
Ieda dada!
Safada!
Ieda deu.
E daí?
E daí se Ieda deu?
Nó em pingo d'água
Naftalina pro Romeu
Deu e daria mais
E disse que nem doeu.
A vida nova
Novinha em folha
Em nota promissória
Ieda deu
A cara a tapa
Tapa na cara
Ieda dá
Ieda deu.
Se o "I" de Ieda dói
Se de dadação Ieda morreu
Ieda é solução dela
E não é problema seu.
.
.

Fotografia: Lara Jade

domingo, 6 de abril de 2008

Ontem, por Juliana Hollanda



Ontem dormi leve
os medos que sufocavam minha garganta
derreteram com uma só palavra

Eu percebi que ainda há chance de ficarmos juntos,
por isso eu acordei feliz...

Todos os quereres dissolvidos
em cacos contraditórios,
voltaram a ser possibilidade...

Um beijo seu
voltou a ser certeza
com apenas uma palavra.

Minha vontade brilhou como estrela no mar
todo o desejo de ti fez lua do meu coração...

Os olhares incertos,
flechas,
mãos,
sobreposições,
texturas...

Tudo aterrisou no encanto
da varinha de condão
daquelas horas de magia e festa.

Tudo que perdido
escondia-se em cantos contrários...
Tudo o que empoeirava-se na estante
tudo o que secreto descontrolava minha inspiração
foi achado e
voltou
em apenas uma palavra:

-Vem!

sábado, 5 de abril de 2008

.
O afogado mais formoso do mundo

Você é o afogado
mais bonito do mundo

Retiro do seu rosto branco
os matos de sargaço
e os filamentos de medusa

Revelo a beleza
de suas sobrancelhas ruivas
incandescentes
rubras.

Martha Galrão

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Temas, cenas e cervejas, por Gabriele Fidalgo.

'Elisa insiste em pedir uma cerveja, enquanto Theo finge não perceber o próprio corpo indo na direção do dela. Ela sabe muito bem que seus olhos estão quase afogando-se em lágrimas que ainda irão surgir, e sabe muito bem o que dirá caso ele perceba. Dirá toda a verdade sem se preocupar se ele entenderá seus versos soltos e teimosos.

Há uns 5 meses atrás, Elisa apenas inventaria algum motivo bobo para dizer como gosta de Theo e como detesta o fato dele temer isso. Mas dessa vez ela não quer saber se ele vai calar o riso ou espalhar o silêncio em seu peito. Ela só quer abrir os braços para os defeitos e detalhes de Theo, mesmo que ele pareça o cara mais idiota com quem ela já falou sobre vícios, galerias e Bukowski. Ela quer mandar para a puta que pariu todo o fingimento desenhado nos gestos dos dois, e dizer que dessa vez está adorando o mistério pecaminoso que se encontra entrelaçado em seus corpos e copos de cerveja.

Ele bebe mais um gole, e sorri sem jeito depois de quase tropeçar em frases mudas.
Ela ergue o rosto para que ele possa observar melhor seus lábios vermelhos, e então diz enquanto sente a urgência do teu peito murmurar: 'Não importa, meu bem. Eu gosto do teu silêncio também'.
_

terça-feira, 1 de abril de 2008

Como esconder uma dor, por Samantha Abreu

.
Ilustração de Paulus Galvão
.
.
O menino observava a mãe ao espelho.
- Mãe, por que as mulheres pintam os olhos?
- Vaidade, meu bem. Pura vaidade.

O garoto, confuso por tantos berros e socos presenciados entre as paredes daquela casa tão pobre:
- Mas mãe, a vaidade serve para esconder o que meu pai fez?

.
.