domingo, 31 de agosto de 2008

o se(...), por Juliana Hollanda

(olhares.com)

não provocava dor aquele ponto vermelho no coração. era azul a cor do órgão vital que batia no ritmo da nona (de Bethoven) quando se via triste.
esmaecido, desbotado. um certo tom sem sintonia. só desilusão.
tudo começou num certo dia de céu lilás. ela abriu os olhos, fitou a janela... quis abrir as cortinas para que o sol secasse os lençóis frios por causa do ar condicionado que ela esquecera ligado durante a noite. sozinho.

tinha levado a alma para passear na madrugada.

ela não estava lá naquela manhã que teria sido uma manhã comum. teria sido comum se a rotina permanecesse. os olhos ainda fechados, o caminha para a banheiro, o banho, o escovar de dentes... todo aquele mundo de coisas que fazia todos os dias.

se ela tivesse mantido a rotina...

há tempos havia esquecido quem era e no escuro perambulava sem pensar. pelo quarto nos gestos, na cor da maquiagem... não pensava. na textura macia das roupas... não.
não pensava. todo dia era uma falta de inspiração. tudo mecânico. dia após dia o cuidado inconsciente de ser invisível.

só que naquela manhã... o diferente aconteceu.

ela abriu as cortinas, trocou de sabonete, pintou os olhos, passou blush e colocou um vestido florido. fez limpeza na bolsa. trocou de bolsa.

...

hipnotisada pelos raios do sol olhou-se no espelho antes de sair.
tudo se fez novidade.

naquela manhã de abril caminhou até o trabalho. observou as árvores, os buracos na calçada, o layout dos prédios. sentiu o perfume de seus próprios cabelos e se disse flor. sentiu as chicotadas dos cabelos com o vento em suas bochechas. ela reaprendeu a respirar naquela manhã que teria sido, comum.
...
seu coração pulsava em ritmos variados e recém descobertos. ela estava em sintonia com ela mesma e com o coração dos transeuntes que atravessavam os mesmos sinais.
ela sentiu fome. há muito seu estômago não bradava tão fortemente por comida. ela lembrou-se que desde os cinco anos não sentia aquela incontrolável vontade por uma comida simples feita com cuidado.
há anos seu paladar resumia-seem comida congelada mal requentada. o que resumindo, resultava em almoços e jantares meio quentes, meio gelo. ela não se importava.
...
há muito não sabia. nãp sentia. não se via. tinha esquecido suas vontades, seus gostos...
ela não tinha costume de tomar café de manhã e ela estava com fome naquela hora. ainda nem era de tarde.
ela se pôs a lembrar de Paris. Pain ou chocolat, tarte tatin, croissants, fromages...
ela sem lembrava dos nomes das comidas, mas ela não sabia falar francês. nunca tinha ido à França; ou será que tinha?
...
diante de tantas descobertas ela lembrou-se que tinha levado a alma para passear de madrugada. ela lembrou-se que durante o passeio tinha cruzado com várias amigas. ela assustou-se. será que a alma dela tinha ido parar em outro corpo e a que estava com ela não era a dela? não era ela; ou teria sido um dia?
...
ela então parou.
...
desistiu daquele dia de trabalho. ligou e inventou uma desculpa para o chefe.
...
chegou em casa. a sensação de liberdade continuava, mas... tudo era ainda muito estranho.
o coração tocava uma música diferente. não era mais a nona, nem a décima, nem axé, nem punk, nem rock n´roll. não era emo. não era mpb. não era nada do que ela se lembrava de conhecer. nunca. ela nunca tinha ouvido aquele ritmo.
aquelas palavras desencontradas numa voz grave de mulher. Believe. after. life. love.

o que seria aquilo?
...
resolveu pesquisar. ligou a tv. o controle sem pilhas.

sábado, 30 de agosto de 2008


Conheço uma mulher estranha
que nunca precisou correr atrás
de nenhuma palavra.

Elas sempre vieram até mim.

Essa mulher não tem
palavras guardadas,
vai encontrando palavras
independentes de mim.

Vejo estrelinhas pelo canto do olho.
Vejo monstrinhos de mercúrio
e espermatozóides em superfície branca.
Vejo vazios
e os pedaços que faltam.

Me falto. Me ausento.
Me mato.

Ela observa as palavras
que atravessam a sua carne.
Eu, essa mulher permeável.

Permeável: que permite passagem.

Permite passar outros corpos
por seus poros,
por sua pele,
por sua alma.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Lavor, por Syssy Virtuale


Destino tramou-me em desatinos.
Espectros de afeto, Skopein e Chronos a-guardam e quando, confrontam:
Contado a conta-gota, conta-se com contato condicional-
mente anti-linear:
Antes de encarar as retinas da minha anti-tese espelhar.
Mesmo sendo, devoto o patrono-padrão:
Conduzida, electra-magnético fulgido:
Familiar a-conch/a/ego.
.
.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Enquanto, por Lais Mouriê


Enquanto o cheiro evaporava

enquanto o sono batia

meu cabelo molhado gritava

pelo arrombo de sua selvageria.


Enquanto à margem esperava

enquanto a maré emergia

minhas ilhas solitárias choravam

pelas suas pontes movediças.


Enquanto tua boca convidava

minha boca enquanto companhia

sua distância vilã se anunciava

e minha saliva vã se ressequia.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Parestesia, por Gabriele Fidalgo.

Guardei tua carta, enquanto vasculhava a mente em busca de palavras que pudessem justificar todas essas coisas que você me diz com tamanha mágoa. Meus olhos deslizaram pelas linhas tortas das tuas palavras duras, e eu tinha vontade de afogar-me nesta raiva exacerbada com que me espanca. Me batendo com frases diretas, segurando-me pelos cabelos, apertando meus defeitos, e sufocando a lembrança viva do meu pensar confuso.
É verdade, eu enfiei um estilete curto e afiado dentro de você. Vi teu coração bater, e, mesmo assim, insistia em não retirar a venda posta em meus olhos. Meu receio era te ver com os olhos quebrados e com lágrimas inevitáveis escorrendo pelo rosto. Tive tanto medo do sentimento que pulsava em teu peito, que pulei de teus braços para cair num chão frio, áspero, seco. Tanto medo de acabar completamente coberta por teus lábios, que corri o mais rápido que pude, tampando os ouvidos e soando frio. Você me olhava perdido, me observava desencontrado da realidade, engolindo as palavras erradas que eu te disse, quieto. E eu sei. Sei que eu deveria ter sido devorada pelo fogo com que você aquecia as minhas noites claras. Minhas noites confortavelmente aconchegadas pela tua voz forte e por teu sorriso leve. Noites que abandonei numa estação de ônibus, após descobrir tua passionalidade.
Li tua carta esperando que soubesse o que estes verbos significariam em mim. Torcendo para que compreendesse que uma carta de amor mal resolvido, tem poder de revirar todas as canções antigas e deixadas num armário qualquer. A tua ortografia me faz pensar que a solução é chorar. A lembrança dos teus olhos apertados e colados aos meus, provocam dores impossíveis de serem descritas, mas mesmo assim eu as revelo para você. Aperto-me contra uma folha de papel, e faço confissões que não poderiam ser perdoadas. Arrisco-me ao menos uma vez em tua vida. Ao menos para dizer que é minha culpa, a tua ferida. É tarde demais, você sabe. Eu errei com a fraqueza que você não conhecia. Deixei tudo assim, desarrumado. Deixei no teu corpo meu gosto transformado em podridão. Deixei em teus cadernos a marca da minha ausência. Deixei no teu café o gelo do meu descaso. Descarada, errante, pequena para os teus sonhos grandes e para as esquinas da tua cidade.
É tarde. Peço perdão por ainda precisar decifrar nossa despedida.
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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Em um Segundo, por Samantha Abreu

Bang!
.
.
E a menina assopra as velinhas,
arranca os papéis,
as máscaras,
e passa correndo pela sala,
rasgando-se
do vestido de babados.
As brigas na escola,
os castigos, depois os martírios.
O primeiro beijo
e o medo do pai,
segredos em diários
escondidos sob o colchão.
A incontrolável sede de abrir-se,
querendo o futuro,
o sexo e êxtases.
Um cotidiano alucinado,
drinks e drogas.
Saudade de casa,
da comida da mãe.
A liberdade tão negra,
as certezas tão cinzas.
Entrega-se às loucuras,
à vida e seu ilimitado desejo
de febres, de aventuras e bares,
cotovelos de apoio
e um copo cheio.
.
.
Bang!
.
[de onde veio a bala ninguém viu, mas ela só precisou de um segundo para lembrar de tudo]

domingo, 24 de agosto de 2008

Fashionista, por Juliana Hollanda

(olhares.com)

Eu misturo tudo mesmo e AVON pra quem não gostar.
Quem só entender CHANEL que BOURJOIS.
GUERLAIN não tá aí prá qualquer um.
Eu quero mesmo é ser LANCÔME.


As melhores cores de DIOR foram as que você me deu.
MAC lembra fast food e eu faço restrições a coisas engordativas, ou deveria fazê-las.
Devia passar na minha cara apenas LUSH organic products, mas meu nome é consumo.


Eu gosto das caixas, logos, marcas, cheiros, texturas...


[DESIGN!]


Capitalista selvagem já fui
não dá pra ser GUCCI o tempo todo


por isso, eu quero que tudo...

se PRADA!

sábado, 23 de agosto de 2008

Actuação escrita, por Pedro Oom

Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Immensu

Foto: Filipe da Veiga Ventura Alves

Suas lágrimas me foram ímã.
Enquanto flutuava rumo à sua chuva, percebia a minha redenção.
Aquele corpo celeste trazia consigo seus três Companieiros alados.
Eu chorava junto, em sincronia às três Levezas que me traçavam em suas malhas invisivelmente douradas.
Foi em sua seiva de bênção que banhei o meu espírito.

* Há de se ter uma delicadeza extraordinária de alma para se tornar um Perseu.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O coração de Henry Lee, por Gabriele Fidalgo.

(olhares.com)

'Eu não sabia o que fazer.
Eu não tinha o controle de nenhum dos meus sorrisos. Eles saiam sem que eu me desse conta e se entregavam para você. Corriam para o meio da sua rua e entravam pelas janelas da tua casa. Minhas declarações te despiam. Eu não sabia como fazer. Eu não podia evitar. As minhas palavras atravessavam as paredes altas do teu coração. A minha paixão te invadia. Pele a pele. Um olho no outro. Mais um sorriso pulava para dentro da tua boca. Aquecia. Aconhegava. Fervia. Transpirava. Meu amor escorria pelas pintas do meu colo claro. Manchava a toalha branca da tua comoção. Desejava tua complexidade, tua ambiguidade, tua loucura. Escorria pelos pêlos arrepiados e roucos da tua pele branca. Tua cor, teu gosto, tua imperfeição. Atirava-me. Descomportava-me. Descabelava-me. Inteiramente em ti. Construindo linhas ondulares nos teus ombros e nas tuas mãos. Descendo pelo teu calcanhar. Não havia maneiras de te sentir por completo. Não havia tempo, não havia meios. Não havia espaço entre teu dia e o meu. Urgência. Eu mesma te desenhava. Eu mesma te escrevia. Estampava manchas vermelhas em cartas sem data, mas você não vinha. Não me vinha nunca, apenas quando. Chegava e me encontrava assim: surda. Não te ouvia quando não estava. Te queria. Imaginava. Eu não sabia limitar, meu bem. Pulava. Contorcia. Me machucava. Estávamos fracos, apaixonados, sozinhos. Não havia tempo, não havia espaço, não havia grito, não havia, meu bem, possibilidade de silêncio. Eu estava em pedaços. Maravilhosamente completa. Batendo forte em teus receios. Provocando cada uma das tuas desilusões. Lambendo as expectativas. Assistindo tua embriaguez, tua carência e decadência. Enfiando-lhe debaixo do chuveiro. Encharcando-o. Conhecendo absolutamente todos os teus pecados. Amando qualquer que fosse a tua necessidade. Errando com você. Mentindo com você. Chorando com você. Longe.
E quando chegava, meus sorrisos atiravam-se, mais e mais uma vez. Caíam dentro da tua boca e depois morriam. Queimados. Apertados. Estremecidos. Nunca houve espaço. Não havia tempo o bastante para te amar o suficiente. Inteiro. Vivo. Respirando até o final da palavra 'amo'. Morríamos sempre no final do beijo. Entrelaçados. Cansados. Cortados ao meio.'
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terça-feira, 19 de agosto de 2008

(Em)Rendas, por Samantha Abreu


Rendia-lhe afeto cada realização de desejo de outrem, que não o seu.
Ah, tantos são os tipos de dores... Adélia disse uma vez: ‘dor não é amargura’. Era apenas o peso do mundo.
Mas as rendas nas costas não esgarçam, e aquela guerra fazia rendida.
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domingo, 17 de agosto de 2008

Sem você, por Juliana Hollanda

(olhares.com)
madrugada
na cama
a cabeça emoldurada por travesseiros altos
edredon
janela aberta
[falta]
sono, ar, calor

anorexia é uma não vontade de comer, de existir, de estar ali deitada
naquele quarto vazio
naquela cama vazia
[dor]
muita dor nos alfarrábios do coração
traquitanas do corpo não têm função
sem você
é tudo vento frio à bagunçar meus cabelos.

sábado, 16 de agosto de 2008


Cutucou a onça com vara curta,
arriscou acender uma vela pra Deus
e outra pro Diabo.

Quis casar e comprar bicicleta,
ladrar e morder,
assoviar e chupar cana,
estar na chuva e não se molhar.
Nesse dia fez sol e chuva,
mesmo não sendo casamento da viúva,
e Deus escreveu certo por tortas - e lindas - linhas.

Martha Galrão




sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Rio das Dores, por Syssy Virtuale




Conflui(ría) enquanto gastava o mar assim-(?)
Eu quis que a dor dormisse..

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A mão podre, por Lais Mouriê



A cama não estava mais amarrotada. Embora a solidão ainda dormisse ali, ela arrumou delicadamente o lençol, esticou meticulosamente o edredon e trancou definitivamente a porta do quarto. Não se importou com suas antigas roupas, seus sapatos gastos, suas jóias falsas. Deixou tudo preso em seu velho quarto arrumado. Deixou uma de suas mãos presa à velha foto e resolveu viver sua nova vida assim mesmo. Caiu na vida. Sem quarto e sem uma das mãos, embarcou numa viagem onde ninguém a encontrava, embora estivesse o tempo todo descoberta. Sentiu frio. Ficou com vergonha da chuva que penetrava por sua pele. Ficou com medo e com vergonha de ser quem era, tão transparente, tão etérea. E quando um carro vermelho se aproximou, ficou encantada pela lataria descascada. O quarto continua intacto. E sua mão, já podre, acaricia a também descascada foto.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O último ato, por Gabriele Fidalgo.


Eu estou com uma daquelas minhas blusas que só coloco em momentos importantes, enquanto te vejo aí parado com essa cara de quem não dormiu a noite inteira. Você me olha com os olhos tristes, e eles parecem mesmo soltos de seu corpo. Assim, como se tentasse tocar-me pela última vez. E eu me pergunto em silêncio, até quando você vai fingir que eu não sei.
Você até que tenta me enganar com esse seu sorrisinho fácil, querendo dizer para eu deixar o seu lado da cama constantemente desocupado, até que volte. Mas meu bem, eu estou na verdade gargalhando calada porque sei que você não vai mais voltar. Não que não tenha lhe amado, ou que estivesse sempre esperando por esse dia. É que eu vejo nessa sua postura de 'homem perdido', todas as razões para você ir. Consigo até adivinhar para onde vai. Provavelmente vai se enfiar dentro de algum avião e se mandar pra qualquer lugar em que você se sinta seguro o suficiente para ser você. Sei lá porque você tem essa impressão de que longe de si mesmo, conseguirá ser mais feliz. Mas tudo bem, eu não discuto mais. Na verdade eu já parei de questionar suas manias há tempos. Acho que a última vez em que me sentei ao seu lado e deixei o meu coração pulsando em sua mão, foi naquele dia em que você me disse para eu fazer o que quisesse com os meus sonhos, planos e sentimentos. E foi também alí, naquele momento, que eu percebi que não preciso de você pra nada. Ok, confesso que doeu muito na hora, e que eu chorei minutos depois. Pensei até que iria afogar em minhas próprias lágrimas. Na verdade, por um instante até quis que isso acontecesse. Tinha a ilusão de que você me encontraria desmaiada, se desesperaria, cuidaria de mim, pediria desculpas sinceras, e depois tudo ficaria bem. Mas ainda bem que essa minha fantasia idiota não aconteceu. Pelo menos assim não perdi meu precioso tempo fingindo acreditar em você mais uma vez. Na realidade, o que aconteceu é que eu deixei que as lágrimas secassem e que o meu coração batesse no lugar certo. Ou seja, dentro do meu peito. Acho até que você percebeu isso. Pois começou a reclamar de um certo vazio. Assim, como se faltasse algo em sua mão que estava acostumado a segurar. E essa foi a primeira vez que eu fingi não entender o que você dizia.
Alguns dias se passaram e agora eu estou aqui. Vendo essa sua mala azul ao lado do meu sofá, e desejando que você segure logo a alça disso e saia daqui.Volto-me a questionar se não enfrentará de uma vez por todas esse seu medinho bobo, e me dirá com todas as letras que irá embora. Mas não, você provavelmente ensaiou muito bem essa cena. Me olha com essa expressão perdida, depois diz que precisa só de um tempo, e num gesto tipicamente masculino, fica esperando que eu peça para você não ir, ou que pelo menos lhe abrace. Mas seu plano não deu muito certo. O que é, de fato, uma pena para um homem tão racional como você.
Eu lembro-me e esqueço como te amava, caminho até você, pego a cópia de sua chave, e digo num tom deliciosamente libertador: ' Não precisa mais voltar!'
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terça-feira, 12 de agosto de 2008

(Des)Confiança, por Samantha Abreu

foto de Rafal Bednarz

Antonia era a melhor vendedora da loja. Adivinhava os desejos das pessoas sem precisar trocar uma palavra com elas. Uma vez, vendeu um aparelho de barbear para uma senhora que queria limpar o tapete peludo da sala. Conseguiu convencê-la de que cortar rente ao chão era o melhor a se fazer.
Sempre se dava bem em jogos, provas e apostas. Pressentia o resultado. Já tinha virado consultora para assuntos de sorte e azar. Sem falar na intuição para grandes acontecimentos: dias antes, percebia o que ia acontecer. As pessoas ficam intrigadas: ‘ela não erra uma, só pode ser mediúnica’. Mas Antonia não ligava muito para essas coisas e deixava o assunto pra lá.

Um dia, chegou do trabalho mais cedo e o encontrou lá, na cama dos dois, suado, sobre o corpo de outra mulher. O susto foi tão grande que, sem pensar duas vezes, enfiou-lhe a faca de pão nas costas.
'Posso não ter previsto, mas cega é que não sou!'
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

YARA COM IPISILON, por Karla Jacobina


Yara, com Ipisilon, morreu aos cinco anos de idade, ao descobrir, em um caderno de linhas que a linha que costurava seu nome não existia no alfabeto.
Mas como poderia morrer se não existia? Tedioso assim, Yara não podia morrer. Tiros e mais tiros mirados em seu ipisilon acertavam em cheio os pingos dos is.

Cresceu de boca fechada e aos gritos. Vez em quando vazava. Na juventude, conheceu Wanda, com dabliu e eram como unha e carne. Amigas de colégio, fumavam incensos e ouviam Raul. Wanda, menina estudada, sabia ler linhas de todos os tipos, inclusive as das mãos. Leu nos ipisilons descosturados de Yara, um futuro de presente invisível.

Yara apareceu no fantástico resolvendo equações de segundo grau em cinco segundos.
Casou-se aos vinte anos com Kleiton e tiveram dois filhos, Caren e Quim.
Suou a camisa vendendo picolés da Kibon e aos quarenta anos, enfim, realizou seu sonho: formou-se em tradução e intérprete.

Yara é tradutora de kás, ipisilons e dablius
e ganha a vida.

domingo, 10 de agosto de 2008

Tudo no meu tempo, Bia Provasi

(Bia Provasi, Juliana Hollanda e Marcela Gianini integram o grupo Madame Kaos)

força estranha que de prédio novo faz ruína
o que nasce já fica velho e nem se cria
furto verde que despenca amolecido
não há tempo de amadurecimento
o rápido engole o lento
eu engulo a seco o tempo
sou passado sem ter tido a opção do futuro
me publico sem passar a limpo o meu rascunho
cheia de erros crassos, toda em desacordo
mas vazo dos limites do quadrado
em meio ao dia quando acordo
porque meu tempo é sempre
e muito
tem milhões de quadros meu segundo
minha linha é curva
e meu olhar, enviesado
atravesso o mundo fora da faixa
no meu passo lento
sinto a dor, ossos quebrados, fratura exposta
e não tenho medo não fujo nem rezo
eu enfrento o atropelamento
(o resto é que é perda de tempo)

*Poeta formada em Cinema (UFF), cursa Teatro (UNIRIO) e trabalha como Produtora Cultural (Galeria de Artes do ICHF). Em 2005, lança seu primeiro fanzine, FOLHAS AO VENTO, na Festa Literária Internacional de Paraty, onde também participa de um concurso em que fala sua poesia pela primeira vez em público. De lá pra cá, lança mais dois fanzines, cria o blogue NUMA NOITE QUALQUER e passa a falar poesia em todo lugar: CEP 20.000, Dizer Poesia, Corujão da Poesia, Poesia Voa, Versos da Meia-Noite, Versos (Ins)Pirados, República dos Poetas, Ratos di Versos, Filé de Peixe, Caldo Cultural, Geringonça, Poveb, entre outros. Formou com Chacal a dupla BIA&CIA e se apresenta com os grupos MADAME KAOS (com Juliana Hollanda e Marcela Giannini) e VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA (com Bayard Tonelli, Betina Kopp, Edu Plachêz, Gean Queiroz, Glad Azevedo, Igor Cotrim, Pedro Poeta, Tavinho Paes e Tico Santa Cruz). Criou o evento POEMÁTICA - A INDISCIPLINA DA POESIA na UFF, e também participa da produção do CORUJÃO PARATODOS, em Niterói. Em julho de 2008, lança seu primeiro livro de poesias, INVENTOS RAIOS E TROVÕES, independente, com o apoio do ICHF-UFF.

sábado, 9 de agosto de 2008

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Neste sofrido encontro
confronto comigo
umbigo doído
doida
nau frágil em alto mar.


Entre a nau e o caos: tormenta
desde o abismo: sentimentos
esperança: farol de milha.

Martha Galrão





quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Caia de costas do 16º andar direto para os meus braços, por Gabriele Fidalgo.

(olhares.com)

'Eu agüento cada um daqueles toques determinados que você não me deu, agüento a gritaria das coisas que você não me disse e suporto a morte de todos os segredos e riscos que não provocamos juntos. Choro pela primeira vez que fizemos amor e que não chegou a acontecer, e aceito as desculpas que você me deu para os erros banais que eu não lhe vi cometer. E assim, com os olhos molhados pelos beijos que você não me roubou, eu consigo enxergar as mordidas que tatoei em sua nuca, sem que eu conhecesse o teu cheiro.
Eu sinto saudade do talento com que você já me encantava ás 3 e 15 da madrugada, quando eu dormia e você era a promessa de um romance imaginário em meu sorriso. Eu não poderia significar uma lágrima em teu rosto, mas escorria feita chuva em seu lençol no varal, remediando o calor insuportável de sentir-se só. E mesmo exausta de correr longe de ti, consigo ouvir os murmúrios dos seus planos desfeitos. Consolando a sua impaciência, quando pensa que nunca foi tão feliz.
Há tempestade sobre o meu corpo e neve na tua cama, mas dividimos as mesmas dúvidas debaixo do cobertor.

Amor desconhecido, eu não conheço o teu nome, mas sinto a vivência convicta
dos teus passos na direção dos meus.'
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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Tele Apatia, por Samantha Abreu

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Sai dessa tela,
sai da novela.
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Entra na vida,
só com a de ida.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

MAIS DO QUE PALAVRAS, por Karla Jacobina

Extreme - More than Words


Antes de fechar a porta
Espalhei mais do que palavras sobre a escada
Cobri a cama com mais do que palavras
Deixei mais do que palavras escritas no bolo de fubá
E uma xícara de bem mais do que palavras mornas de camomila
Ele abriu a porta
Bem acomodou seu traseiro sobre sua caixa de entrada
E bem menos do que três palavras dirigiu a mim.
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domingo, 3 de agosto de 2008

Desencontro, por Juliana Hollanda

(olhares.com)

foi um amanhecer estrelado
cadentes cometas procuravam abrigo em pontos de ônibus.

sinais fechados demonstravam dessespero e dor.


ele só queria que ela estivesse lá.
ela nunca chegou.
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sábado, 2 de agosto de 2008

Fruta, por Martha Galrão













Pablo Aizoiala


Fruta é bom porque tem maciez.
Coloca primeiro os lábios, sente...
depois trava os dentes
docemente, mas com firmeza.

Aí vem o frescor deslizando
mansinho pela língua da gente.
E se tem caroço
se chupa
entre a língua e o céu da boca.