segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mulher do homem da cobra, por Karla Jacobina


Há pessoas que vêm ao mundo para ouvir, outras, porém, têm uma malagueta no lugar da língua. Eu vim ao mundo com o agridoce ofício de falar. As palavras são diamantes que cravejam minha boca e como toda jóia rara, é cara demais para aqueles que não sabem se desperdiçar.
Ouvir é boa maneira de gente grande, adestrado, que abaixa a orelha enquanto o outro relincha. Falar é coisa pra cotovelo, pra articulados. Eu falo pelos gagos, pelos mudos, pelas paredes que só têm ouvidos. Eu falo por falar, por luar, pra ver no que é dá.
Ofereço minha língua à guilhotina cada vez que falo o que sinto. Sim é liquidação, o que sinto e respondo à vida não tem preço e nenhuma possibilidade de negação.
Eu prefiro que as mãos do medo rompam minhas cordas vocais, mas nem por uma vez mais, lustrarei minha boca suja com balas de gengibre.
Se maturidade é isso, um trapo que nos amordaça diante do espontâneo, serei eternamente criança e encherei o ouvido do mundo de lágrimas se um dia quiserem calar meu choro.
Há pessoas que vêm ao mundo para ouvir, outras para falar e há aquelas que eu ainda não entendi pra quê.

2 comentários:

Samantha Abreu disse...

texto gostoso demais, karlinha.
adorei.

mas, veja, a minha malagueta fica no braço!hahahahahaha.
Um beijO!

Gabriele Fidalgo disse...

'Se maturidade é isso, um trapo que nos amordaça diante do espontâneo, serei eternamente criança e encherei o ouvido do mundo de lágrimas se um dia quiserem calar meu choro.'

Karla,
que momento maravilhoso! Que texto grandioso!

Um beijo!