sábado, 3 de janeiro de 2009


Pai,

desde que você se foi, hoje pela primeira vez lembrei dos meus chinelos que você guardava há vinte anos pra mim.
Você sempre mandando eu calçar os pés, e eu sempre descalça. Um dia, na casa dos meus vinte anos, cheguei em Valença sem chinelos, pretendia ficar descalça em sua casa, mas eis que você compra pra mim chinelos novos e eu aceito só pra te agradar.
E na viagem seguinte, mal eu chego você me entrega os chinelos, e quando vou ao Guaibim, lá estão eles de novo, guardados carinhosamente num saco plástico.
Achei engraçado, mas não demorei a entender que diante da grande saudade que sentíamos um do outro, os chinelos garantiam a minha volta.
E passei a contar com eles, a saber que estariam em Guaibim ou em Valença. E essa brincadeira só durou vinte anos, tão pouco tempo.
Painho, agora que a saudade é tão imensa, imensa, imensa, imensa, imensa, imensa, agora que é tanta saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, os chinelos sumiram e eu não sei pra onde mandar essa carta, mas meu amor por você está vivo e pulsa no meu sempre.
Te amo muito, como sempre te disse.

Sua filha,
Martha

3 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Puro, puro, puro, puro!
Sem querer ser clichê, acho que são essas as lembranças e esses os momentos que fazem a vida valer a pena.

Beijos, Martha!

José Calvino disse...

Só com poesia
essa caminhada sua
a chuva molhando
as flores, as árvores...
A vida
é como o espírito que renova.
Viver
esta vida nova.
Vale a pena viver!

Beijos, Marthinha!
José Calvino
Recife

MARIAESCREVINHADORA disse...

A saudade é uma dor de mão única, Marthinha. Basta um pequeno detalhe, como os teus chinelos que Ramon guardava para não te ver descalça e pronto. Ela renasce.
Quando alguém que amamos se vai, o melhor consolo é recordar.
Achei o teu texto tão lindo, lindo, lindo, lindo, que me deu vontade de chorar.
Não posso fraquejar agora.
Beijos,

Conceição