segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sobre a paixão e as mitocôndreas, Por Karla Jacobina


Há pessoas que passam despercebidas em nossas vidas, como as mitocôndreas. Não que elas sejam insignificantes como as mitocôndreas, tampouco que mitocôndreas sejam insignificantes, o que quero dizer é que enquanto essas pessoas respiram, as fotos do casamento da filha do ascensorista chamam mais nossa atenção.
Um sorriso de canto no elevador é o ápice de nosso relacionamento. Convivemos com essas pessoas como convivemos com as mitocôndreas. Sabemos que elas existem, mas não queremos saber se elas comeram chester ou peru no natal.
O que nós descobrimos mas sempre nos esquecemos é que a paixão é sorrateira. Tão sorrateira quanto a respiração celular. Não vemos seu nariz, não ouvimos seu ronco, mas de tanto não vê-la, no dia em que vemos, sentimos o coração arrancado pela boca.
A paixão não é fogo, é combustão. É a atividade entre seres combustíveis que se oferecem de sobremesa ao fogo. O fogo é onipresente e não é preciso chave wi-fi para acessá-lo, basta uma única faísca de desejo para ser incendiado.
Não acredito em paixão a primeira vista porque todas as paixões são a primeira vista. Não falo com relação a olhar um rosto pela primeira vez, mas falo em olhar o rosto de sempre como um rosto de nunca. Vez que colocamos fermento nos olhos e os detalhes crescem, gigantizam. Daí nos perguntamos que nuvem chovia e escondia de nós dois olhos de sol. Que surdez nos lacrava e impedia-nos de ouvir a melodiosa respiração das mitocôndreas.
Eu não sei no bolso de qual paletó a paixão se esconde, tampouco pra onde vai no inverno. Só sei que seu último paradeiro conhecido e registrado foi dentro de mim.

4 comentários:

Marcos Miorinni disse...

Olá, gostaria de lhes dar os parabéns pelo blog. Gostaria de acompanhá-lo mas não localizei o link.

Abraços Literários
Marcos Miorinni

porentreletras
janelasetravessias
oficinadefragmentos

' Rôh disse...

Legal essa mistura de prosa com biologia, por assim dizer. rs
Muiiito bom!!!!!
Adorei o fim, q vc diz:

"Eu não sei no bolso de qual paletó a paixão se esconde, tampouco pra onde vai no inverno. Só sei que seu último paradeiro conhecido e registrado foi dentro de mim."

Um abração. Roh

janainnajacobinna disse...

PARABÉNNNSSSS!

janainnajacobinna disse...

VOCÊ SEMPRE ARRASAAAAAAAA!