domingo, 25 de janeiro de 2009

Sobre rios de lama e borboletas (I)

(olhares.com)

Querido (z),

Vontade de escrever uma carta sobre qualquer das coisas que não se explicam por querer, mas devem ser explicadas porque são necessárias.
Desejo de exprimir em frases feitas, palavras alinhavadas com sentimento.
Preciso falar de coisas que pairam no ar como o novo "vôo" sem acento circunflexo.
Deslizar na esteira da academia e pisar em cima do que foi deixado para trás.
Saborear o que ficou nas entrelinhas e tudo o que eu devia ter falado para você cara a cara naquele nosso último encontro.
O coração volta a bater quando te penso, quando lembro da nossa primeira vez, do meu irmão dormindo como anjo na cama de cima e nós dois ali entregues um ao outro e no quanto isso, que de tão importante, se perdeu no espaço.
Penso no quanto deixamos de ter controle sobre nossas vidas naquele quando em que elas se despediram sem ao menos um beijo na testa ao virar daquela esquina depois da festa de natal. Em nossos olhares que desejavam ser espelho retrovisor e nas mãos suadas que deixaram de se encontrar. O meu corpo não mais sente seu calor e tudo que a gente viveu, deixou parado num tempo sem minutos, horas ou segundos.
Paradas no espaço ficaram as fatias de bolo que a gente não mais dividiu e todas as lágrimas que escorreram de mim como orgasmo e não mais foram posar no seu colo.
O seu ombro nunca mais tive para chorar e o seu sorriso nunca mais deixei me fazer cócegas nas bochechas.
As bonecas tchecas deixamos de comprar, os banhos de banheira esquecemos e as madrugadas a nos embalar na rede perdemos de vista.
Todos os invernos quentes e suores frios e os lábios seus que nunca mais tingi com meu batom. Os meus cigarros que você não acendeu e as noites de esfregação e disfarce na piscina do condomínio da praia, os meus porres que você não segurou, minhas viagens e os poemas que nunca mais dediquei para você.
Queria relembrar todos os sonhos que tive contigo e te contar detalhadamente todas as passagens remontando diálogos passo a passo para tudo depois terminar numa bela risada ou numa trepada animal.
Queria voltar a ser sua qualquer coisa, mas me deixei ausentar nos seus momentos felizes enquanto você se esquivava dos golpes certeiros da minha espada triste naquela última manhã de sol.
Percebo agora que ficou muita coisa por dizer e por sentir e o trem já passou. Eu saí tão de repente da sua vida para me entregar para outros braços e tentar construir uma casa sem paredes, para mim, que tudo desmoronou como o teto daquela igreja evangélica e agora me vejo aqui, sozinha esperando você chegar, mas você nunca vem e eu nem tenho mais seu telefone para te acordar no meio da noite.
Você, ao contrário de mim, construiu um belo prédio com varandas e tem churrasqueira, cama king size e tv de plasma para assistir filmes que nunca vimos. Tem outros ombros para dividir suas angústias e outras bochechas onde esfregar o seu sorriso.
Eu, ao contrário de ti, procuro em outras esquinas seus abraços e estou presa numa história sem final feliz. Deixei o sorriso do gato da Alice escondido atrás da estante e te dou agora meu coração e mais forte abraço.

Sinta- se melado com meu gloss mais pegajoso.

Beijos da sua sempre,

P.

(*) da SÉRIE: " esta poderia ser mais uma carta de amor e é."

4 comentários:

Cosmunicando disse...

amor escancarado, lindo.

Gabriele Fidalgo disse...

Gostei muito. muito mesmo!

'Queria relembrar todos os sonhos que tive contigo e te contar detalhadamente todas as passagens remontando diálogos passo a passo para tudo depois terminar numa bela risada ou numa trepada animal.'

quero espalhar essa frase nas ruas da minha cidade!

beijos

LarissaFietto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LarissaFietto disse...

Maravilhoso, assim como todos os textos que eu já li desse blog.

Parabéns a todas!

beijo