domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre rios de lamas e borboletas (II), por Juliana Hollanda

(olhares.com)
.
Querido (Z),
Minha cabeça dói e penso que talvez eu tenha coragem de te fazer uma visita em breve.
Penso em bater na sua porta no meio do inverno vestida de mendiga para você ter a desculpa de ao me enxotar da sua porta dizer: - Foi apenas uma pedinte. Ela só queria um pão.- e aí, você terá além da desculpa, a escolha - entre me dar migalhas que restaram do jantar ou me deixar entrar para servir-me um banquete.
Pode ser que você tenha muito a me dizer sobre o que sente e guardou todos esses anos enquanto eu me delicio com brioches e suco de laranja e te ouço. Pode ser, talvez, que você diga que não tem nada pra falar que “o que passou, passou” e “quem vive de passado é museu”, ou que você seja sincero e me diga tudo o que sempre sentiu, sente e guarda, mesmo que isso tudo venha acompanhado de: -mas (...)eu não tenho coragem de desfazer a minha cama e ir contra todas as pessoas que talvez não aprovem minha atitude. Ou pode ser que você diga que não está nem aí para nada e se hoje eu demonstro que te quero tanto (quando lembro do que a gente viveu) você vai apostar suas fichas em nós e sem medo mandar tudo às favas para fugir comigo para um paraíso só nosso, uma ilha inabitada.
Acho possível também que mais uma vez façamos um acordo, desta vez diferente, de você não mudar a sua vida por enquanto e nem eu mudar a minha, mas que é necessário que deixemos nossos sentimentos escondidos dos outros, não de nós e talvez você invente uma viagem repentina de trabalho e a gente tenha o melhor fim de semana do mundo e depois dele, é possível que a gente esteja apto a enfrentar todo tipo de tempestade, pois o que sentimos é a prova de raios, trovões e relâmpagos.
Estamos vivos e constantemente nos deparamos com testes, provas e jogos de azar. Estou atualmente apostando alto no cassino clandestino do meu coração e essa roleta-russa pode me trazer alegria ou lágrimas, mas é importante que eu seja sincera comigo neste momento porque depois de anos voltei a pensar em nossa história e pesei na balança muita coisa errada, ou certa ou nada errada ou nada certa, porque na verdade, em se tratando de sentimento nada deve ser julgado de uma forma assim maniqueísta. Sentimento é real, mas não palpável e nessas últimas semanas comecei a perceber que nossos “destinos foram traçados na maternidade”, mas de alguma forma a gente trocou os bebês e deixamos que Eros nos flechasse duas, três ou quatro vezes, por engano e por isso, quando a gente cresceu resolveu mudar de rumo e entrar numa estrada diferente com curvas tortuosas, muita neblina, chuva e caminhões e por isso, a gente se envolveu em alguns acidentes e até permitiu que o cirurgião plástico confeccionasse máscaras para que escondêssemos do mundo nossas verdades e então, nossos olhos começaram a enxergar beleza em outros olhos e até usamos luvas para perceber em outros toques a maciez ou rispidez do nosso próprio toque.
Na outra carta, esqueci de lembrar de quando eu estava fazendo vestibular, você também estava perto de mim e quando você passou no vestibular, você estava afim de outra garota, mas quem passou a gilete na sua cabeça, fui eu. Isso se chama confiança ou destino, como você preferir.
E eu, de verdade, acho que existe um jarro de cristal que você esqueceu dentro de mim e ele ficou vazio por um tempo e por isso, as coisas adormeceram aqui dentro. O líquido anterior foi todo derramado na praia da nossa adolescência e isso de alguma forma deve ter danificado algum componente interno meu. Só que passei recentemente por uma revisão, as peças oxidadas foram recuperadas, o novo líquido que foi inserido é roxo e tem cheiro do perfume que eu usava na época em que decidimos abrir mão de nosso gosto para experimentar novos paladares. Nessa busca, muitas vezes nos deparamos com sabores amargos, ácidos, doces demais. Nunca na medida certa do nosso, que mesmo misturando baunilha, pimenta, maracujá, almíscar e alecrim tinha um gosto bom, dava conforto, não lembra?
Penso agora em todas as vezes que você me fez caminhar sem roupa ou vestida pelas nuvens e aquele dia em que sem salto alto te pedi um beijo e você me deu e naquele que foi o nosso melhor beijo, porque foi o último e ah! nossos beijos...
Era tão bom te beijar e agora sinto somente a saliva endurecida da lembrança e.os tremores de quando você me apertava a cintura e isso é muito triste. Vou no banheiro secar as lágrimas que meu coração chora.
Receba minha mordida na sua nuca.
.
Beijos,
X
da SÉRIE: Amores adormecidos III - "esta é uma carta ridícula como todas as outras, de amor."

Um comentário:

Cosmunicando disse...

essa série tá demais =)