sábado, 7 de março de 2009

Ex-voto

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Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro de minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
"você é muito sensível, por isso tem falta de ar".
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem força para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria junto mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

Adélia Prado

6 comentários:

Éverton Vidal disse...

O que é dizer? É completo, perfeito. Adélia não é sempre assim?

E hoje escolhi pra ler de montão os versos de falópio.

Inté.

Leila Saads disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leila Saads disse...

Nossa, tinha achado que era de vocês esse poema! Depois que vi o Adélia Prado... Não conhecia suas palavras, mas vou dar uma pesquisada, que poema lindo!
=*

Marcella disse...

Leio sempre o blog, fiquei feliz por hoje ler um poema de Adélia (minha conterânea- Divinopolitana) Prado.
Parabéns!!!

José Calvino disse...

Que poema lindo!
Ler Adélia Prado, é o máximo.
Obrigado, Marthinha!
Beijos,
José Calvino

MARIAESCREVINHADORA disse...

"Por que então limpei os olhos/quando avistei roseiras"

Quanta sensibilidade, amo Adélia Prado.
Beijos

Conceição