domingo, 8 de março de 2009

Sobre tubarões e peixinhos dourados (I)

Ando perdida na fumaça dos cigarros não fumados. Meus sapatos cor de prata remetem às cinzas que deixei de largar nos cinzeiros, nas esquinas, por aí.

Um sentimento esquisito me invade como frases soltas e me faz pensar no que é e no que seria de mim.

No você, nele, nela e no meu eu.

Um lado é espelho. Equilíbrio. Segurança. O outro é diferença. Agitação. Desespero.
A segurança é a dor que não quero sentir daqui uns meses quando descobrir que você voltou para ela., e a agitação é o que não devia querer, mas preciso sentir e isso ele me dá com propriedade.

A calmaria que você momentaneamente fotografa na minha vida, só poderá ser vista em álbuns de retrato, porque por mais que você represente para mim aquela casa com cerca branca e margaridas no jardim – eu sei que será por pouco tempo...

Você não tem maturidade emocional para mim e sim para ela, que é seu cortiço, sua pensão de 412 quartos no subúrbio. E não digo isso porque ache que ela é menos que eu e sim, porque ela é tudo o que eu não posso ser para você.

Ela é seu desespero, seus traumas, seu complexo de Édipo e eu sou só a mulher que você faz feliz por amar demais e esse peso é mais, muito mais, do que seus ombros conseguem carregar.

Eu sei que a gente poderia já ter um filho de 2 anos e eu poderia estar grávida da nossa filha e a gente poderia dividir um apartamento e ter ido pra Europa de mochilão nas férias, mas eu também sei que ela organiza suas finanças e suas fitas de vídeo, seus compromissos e até a hora que você deve escovar os dentes. Ela mantém um pijama azul dobrado embaixo do seu travesseiro e te beija na testa e diz boa noite quando vocês vão dormir. E eu também sei que comigo isso seria totalmente oposto porque assim que você entrasse em casa eu ia tirar a sua roupa toda e te arrastar para o sofá e te contaria o meu dia e te beijaria inteiro e te serviria o jantar à luz de velas e tomaria banho de banheira com você e apararia a sua barba e dormiria completamente nua com a cabeça escorada na sua barriga e te acordaria no meio da noite com beijos e beijos e beijos. A gente nunca ia ter um dia igual ao outro e eu nunca te daria um beijo na testa e as nossas roupas ficariam sempre espalhadas pelo banheiro, pela sala, pela ilha de edição, pelo quarto.

O seu sentimento de segurança comigo, seria sempre a falta de rotina e por mais que o seu consciente queira isso, agora que vocês deram um tempo, no fundo seu inconsciente deve estar gritando: - “não. não. NÃOOOOOO!!!”.

Eu sou aquela que faço você andar a 140 km/h porque isso me dá tesão e ela quer que você ande a 60. Ela é a sua chave de cofre e eu sou a porta aberta, as janelas escancaradas.

Por outro lado, você é todas as minhas certezas e ele é as respostas que eu nunca vou ter. Ele transforma minha vida, meus sentimentos em montanha russa e você é meu carrossel com cavalinhos, pôneis e unicórnios.

Se você conseguisse se juntar a ponto de verdadeiramente saber que sou eu aquela que vai ser sua eternidade eu ficaria com você e seria sua por inteiro, mas eu prefiro me afastar e deixar que ele e o trem fantasma que ele representa na minha vida continue a seguir o caminho, porque eu sinto por ele uma vontade que é completamente diferente da saudade que eu sei que vou sentir de você quando você pela quinta vez sair da minha vida.

Então, se eu sinto saudade de ti, essa saudade vai ser para sempre e dor, eu não preciso mais sentir. Eu sei que não vou mais precisar chorar por você e nem por ele, porque eu vou transformar ele no meu bote salva-vidas enquanto você será sempre me transatlântico inatingível em alto mar. Eu não preciso mais ficar à deriva da fumaça dos cigarros não fumados. Volte para ela que eu volto para ele e assim a gente vai ser feliz; bem feliz.
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Da SÉRIE: "Love hurts (but dancing like an idiot helps)"

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