terça-feira, 16 de junho de 2009

Me and Myself, por Samantha Abreu

foto de Ellen von Unwerth
.
Porque ele a convenceu de que era louca, ela resolveu procurar a tal clínica.
É bonito esse lugar, bem tranquilo e, mesmo que eu não tenha problema algum, aliás, penso que deve ser história desse povo desocupado, posso fazer de conta que tô em férias. Aquele emprego tá mesmo me matando, tô cheia de relatórios pra fazer. Será que vai demorar muito essa consulta? Moça, dá pra ver se o doutor me atende com prioridade, por favor? Se ela soubesse como ando cheia de coisas. A casa tá uma bagunça e ainda tenho que passar pra comprar o vaso que aquele palhaço quebrou. Nossa! Agora lembrei que ele ainda nem tirou tudo lá de casa, e se ele for lá agora à tarde? Vou ligar pra Arlete, ela que deixe entrar, pra ver uma coisa. Ah, não me tira do sério, gente! Tô aqui nessa clínica não é à toa. Arlete, o Chico passou por aí? Olha, não deixe ele entrar, hein, Arlete! Eu não autorizo. Ai, meu Deus! Quanto tempo será que ainda vai levar isso aqui? Nossa, que vaso seco, será que não tem uma mulher capaz de jogar água nessa planta, gente? Já são duas horas e eu vou atrasar no almoço de novo. Depois, quando volto, aquele boçal fica pedindo satisfações. Eu mereço. Quando chegar, preciso ligar pra Cristina e marcar meu horário, esse cabelo tá vergonhoso, pelo amor de Deus, ninguém mais dá jeito nisso. Oi, moça, será que o doutor demora? Tô com o horário apertado. Vê isso pra mim? Obrigada! Detesto ter que sorrir quando tô com raiva, fica essa boca congelada aqui, será que a pessoa percebe? Deve ser muito feio. Eu nunca percebi ninguém se obrigando a sorrir pra mim, sempre me fazem cara feia. Não ligo, não vim ao mundo a passeio. Boa tarde, doutor, como vai? Posso sentar? Eu não estou muito bem não. Veja, ando conversando demais comigo mesma. Às vezes, até esqueço que o mundo é cheio de gente. E sabe o que é pior? Eu me faço perguntas e eu mesma me respondo. Não consigo tomar uma decisão sequer sem me consultar antes. Ficamos horas em discussão, eu e eu mesma. Não tá dando mais. É isso, vou dizer bem assim pra ele, vai parecer mais claro, senão, como vou explicar essa maldita conversa? Posso dizer que falo sozinha! Mas eu não falo sozinha, ninguém escuta o que tô pensando! É claro, né Clarice, se você está falando sozinha, ninguém precisa escutar. Ah, que saco ter que explicar uma coisa dessas. Já sei, vou embora. Não, não vou mesmo, agora já estou aqui. Mas está demorando e prometo não discutir mais se você ceder em algumas coisas. Em quê, por exemplo? Quero fazer amor de quatro. E eu com isso? Pode fazer. Ah, mas como faço à vontade se você não pára de me chamar de vaca? Não consigo me sentir bem dando de quatro com alguém me chamando de vaca. É, sei bem, mas quando ele te chama de cachorra você gosta. E daí, cada um na sua. Pois então, como ficamos? Se formos embora você me deixa em paz na hora H? Mas eu vou querer uma coisa também: chupar sorvete todo dia. Ah, nem a pau! Aí eu engordo! E você acha que é só a sua bunda que dói naquela hora?
.

2 comentários:

BAR DO BARDO disse...

A - DO - REI !!!

Patrícia Boudakian disse...

uau. adorei. principalmente esta parte: "Veja, ando conversando demais comigo mesma. Às vezes, até esqueço que o mundo é cheio de gente. E sabe o que é pior? Eu me faço perguntas e eu mesma me respondo. Não consigo tomar uma decisão sequer sem me consultar antes"

bj