domingo, 7 de junho de 2009

sobre imensidão e terremotos (V)

Da série: dois monólogos
.
(I)

esta chuva me esfria & tudo me irrita. o abrir do guarda chuva de criança chinesa. os pés úmidos como lágrimas. as conversas altas no corredor do metro - suprasumo do desrespeito - ao silêncio dos passageiros.

esta inútil distância entre nós qu'eu sonho um dia sumir. esta distância doída criativa entre os vivos e os mortos. eles elas lá no escuro da covas já sem olhos para ver e sem mãos para tocar para acenar lenços nos piers do tempo. suas unhas a crescerem na esperança de agarrarem algo. o que? ainda não se sabe ou nunca saberemos - já que uma infinita preguiça come as carnes em desaparecimento.
vontade de abrir portas. sair sem rumo pelas casas dos botões. fugir pelos cordões das pipas. mergulhar nas pautas das páginas. correr pelos fios dos telefones aéreos como as andorinhas. comprar um pedaço de hora feliz. vender um segundo de hora infeliz.

(II)

esta chuva me aquece a alma e me faz alegre e radiante nesta tarde cinzenta. oportunidade ímpar de usar meu guarda-chuva com imagem de Renoir.

parece que estou na França a degustar queijos com croissant e uma taça de vinho Bordeaux. As lembranças me inquietam e me fazem saltitar feito menina que ganhou nova boneca.

distância que começou mais longa e agora estreita-se por um caminho florido e silencioso rumo ao desconhecido mais alinhado -em linha reta- em sua s setas e obstáculos - permeado por unhas médias pintadas de azul marinho cintilante que arranham e repelem toda a dor que outrora alguém pudesse sentir mesmo como o estômago cheio de água, vícios e vontades.

um gritar à plenos pulmões :

-estou viva!

e uma voz que sorri quando o telefone toca e escutamos:

-Alô. Algo como vender um pedaço de hora infeliz para comprar lá na frente um segundo de hora feliz quando chove.

-chove-

chovem cântaros
e canções celestiais
desse céu Londrino
que nos encobre a testa
e ofusca
os olhos.

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