sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Como nós dizemos “eu te amo”

Querida Helena,

Você é fruto de uma grande família católica-militar, todos sádicos, diga-se de passagem, mas até nós dizemos "eu te amo".

Primeiramente tentamos fazer as coisas do modo direitinho, e criamos tradições para tal. Inventamos o nosso próprio jogo chamado: Diga-Me Cinco Coisas Sobre Meu Respeito que Você Ama.

Para que pudéssemos saber o quanto amávamos um ao outro e nada ficasse em silêncio. Da primeira-e-última vez que tentei jogar com meu irmão, seu pai, o que escutei foi:

[ barulho de grilo ]
[ barulho de grilo ]
[ barulho de grilo ]
[ barulho de grilo ]

“... Ah, daquela vez que você grudou a língua no freezer, foi excelente!”

E sempre que dois membros da família jogavam, algum momento onde alguém se fodeu vinha à tona, porque era isso o que realmente amávamos uns nos outros.

O Natal de 2007 foi o pior Natal de todos os tempos. Ao menos, chegamos a conclusão que não se pode brincar de Diga-Me Cinco Coisas Sobre Meu Respeito que Você Ama numa família de sádicos terrívelmente sensíveis cheios de amor para dar.

Outra coisa que aprendemos é que raquetes que dão choques que servem para matar moscas, vão servir de inúmeros propósitos, menos matar moscas. Cristo, quem distribui raquetes que dão choque em amigos-secreto familiares?

Mas, o ano de 2008 foi melhor, logo no comecinho dele, descobrimos uma tradição que nos cabia feito luva.

Minha mãe (sua avó) é uma mulher espetacular, além de ser meu guru particular. Obviamente, durante a minha criação, ela cometeu alguns deslizes como quando ela me iniciou aos cigarros de chocolate.

Não costumávamos sair muito juntas, nada além de supermercados e as tarefas domésticas exteriores que ela tinha que resolver. Na verdade, nós saíamos bastante juntas, ela é quem não saía o tanto quanto eu gostaria. Então, resolvi insistir:

- Vamos ao cinema?

- Não gosto desses filmes de hoje.

- Cinema de arte?

- Preguiça de sair de casa.

- Ahhhhhhh... é o mês do holocausto, a Prima disse que vai passar o Diário de Anne Frank, a gente chama a Tia A, a Tia B, e a Prima. Nós saímos pra tomar café depois. Bora fazer um programa bem fru-fru.

- OK! – não se engane, sua avó não concordou pelo fru-fru, eu a tive quando falei a palavra HOLOCAUSTO, a mulher tem um amor oceânico por tudo relacionado à Segunda Guerra Mundial e à Extra Terrestres.
Liguei. Programei. Concretizei. A caravana feminina da família estava em movimento em pleno sábado às quatro da tarde em direção ao cinema. Chegando lá, descobrimos que o mês de filmes sobre o holocausto só começaria na semana seguinte. Ruim pra Prima, pois todas olharam enfurecidas para ela. Por já conhecer o olhar chacal da família quando as coisas não saem do jeito que elas planejam, e por empatizar com a Prima que estava prestes a ser devorada, propus que de pronto fossemos tomar café.
Seguimos em rumo ao novo destino, sem saber que dali nasceria uma outra tradição. Sua avó vê os cartazes dos filmes:
- OLHA XXY! Deve ser uma ficção científica, e acabou de começar, vamos rápido ver esse filme! – ela disse.

Compramos os ingressos e entramos correndo. A sala já estava completamente escura. Perdemo-nos umas das outras. Eu fiquei a rodar por um bom tempo porque não enxergava lugar para sentar, quando uma voz de mulher, mas bem grossa, fala: “Senta aqui!”

Sei que podia ser por simpatia, mas eu, por pavor, obedeci. Certifiquei-me antes que iria sentar, mas me manteria uma poltrona vazia a distância entre nós duas. Esse simples fato me fez perceber que se algum dia, eu fosse parar na cadeia, ia me dar mal geral. Ia ser a putinha. Sou medrosa, fraca e facilmente manipulável por mulheres de voz grossa, posto que, a única maneira de me dar de bem lá, era namorar logo de vez com a mais malvada. Solução encontrada, pus-me a prestar atenção no enredo do filme.

Ficção cientifica porranenhuma. XXY era a história de um triangulo amoroso. Dois caras e uma mina. Com o porém que a mina era hermafrodita e não sabia se queria continuar mina ou virar um cara. O filme tem uma cena que com certeza é uma das maiores putarias que eu já vi em toda minha vida. E olha que sua tia já viu MUITA putaria na vida. O menino e a “menina” vão perder a virgindade juntos, na hora, a “MENINA” vira e COME A BUNDA DO MENINO.

Ah, E ELE GOSTA.

Como uma boa sádica seguidora de tradições familiares que sou, tudo, TUDO o que eu queria naquele momento, era estar perto da sua vó para assistir a reação dela ao ver aquela cena.

Filme que ELA INDICOU PARA FAMÍLIA.

Uma vez que das duas outras vezes que fomos ali, foi para assistir Meninos não Choram e Transaméria, e ela me ridicularizou pela escolha dos filmes. Estava morrendo de rir por dentro, mas não podia exteriorizar, tinha medo da voz e das vozes das outras pessoas que estavam no cinema, que se elas foram ao cinema avisadas sobre o que veriam, não iam achar nada divertido eu rindo.

As luzes acenderam, casais de homossexuais, simpatizantes, pseudo-intelectuais, alguns outros desavisados e nós com cara de tacho saímos do cinema. Fomos todas mudas ao café.
"Prima: Desculpa, eu não sabia que Anne Frank não era hoje.

Mãe: Eu lá sabia que era isso quando eu vi o cartaz!

Eu: Gente, vocês viram o tamanho da PIROCA DA ANNE FRANK?

Tia A: O pior que homem gosta do que é esquisito mesmo, os meninos daquela cidade, eram tudo loucos por ela... ele... sei lá!

Tia B: E o pessoal que saiu de lá de dentro quando acabou o filme?

Mãe: EU LÁ SABIA QUE ERA ISSO QUANDO EU VI O CARTAZ!

Eu: Mentira que tu sabias que XXY significava exatamente isso, e que toda vez que a gente vem pra esse cinema é pra ver um filme de mulher que tem piroca, foi assim com Meninos Não Choram e Transamérica. Essa é a nossa tradição, você só quis ritualizar, para dizer que você me ama."

Amor coisa e tal,

Tia Jana

P.S: Agora que você fez 18 mal posso esperar que você venha visitar no final do ano para irmos ao cinema e jogarmos tênis.

5 comentários:

Sunflower disse...

Para os detalhistas: sim,isso é uma adaptação de um texto do Sunflower.

Uma verdade contada mil vezes se torna enjoativa. Logo, prometo texto completamente fresquinho na sexta que vem.

thahy disse...

"que é isso, menina?! tá enlouquecendo rindo aí sozinha na frente do laptop?"

- minha mãe.

Fábio disse...

Talvez depois de saber esse tipo de coisa, Heleninha até fique menos chateada por ter crescido no Acre E escapada de algumas das tradições familiares.

Beijos.

a clara menina Clara disse...

Fico imaginando a cara de Helena quando ler essas coisas.E confesso, caio de rir.

Marcos Satoru Kawanami disse...

o cinema ao qual às vezes consigo ir fica a 80Km daqui, e já vi que é muito careta se comparado aos de Fortaleza.

as meninas XXY aqui são chamadas de mulher-macho.

o que eu acho de mal-gosto, pois a tradição católico-militar manda dizer: Zé Muié.


=D
marcos