sexta-feira, 11 de setembro de 2009

"Conhecereis a verdade e ela te libertará", por Janaina Lisboa

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Querida Helena,

você está prestes a soprar dezoito velas, a-há! Espero que você não ache que eu tenha negligenciado esta data como, possivelmente, presume que fiz com todas as outras. Mas, antes que prossiga com uma ladainha impossivelmente adolescente de ninguém me ama, ninguém me quer, eu sou totalmente incompreendida pelo mundo. Sou uma baleia: peso cinqüenta quilos, por favor, me escute, tenho uma explicação completamente coerente para não estar presente nas fotos de seus 17 aniversários posteriores.

Como deve ser de sua ciência, você nasceu em oito de junho de 2009. O que você não deve ter tanta certeza, é que te amei insanamente desde o momento que soube de tua existência. E quando você resolveu vir ao mundo, toda cor de rosa, careca, muito séria, dona de longos, tateantes e curiosos dedos; dei-me por vencida e me proclamei morta de afeição por você.

Então, por que eu parecia ter tanto descaso com a minha presença em teus aniversários? É que você, primeira sobrinha, nasceu no Acre e o Acre não engana ninguém. Segundo as mais óbvias concepções geográficas populares, ele não existe.

Não acredita? Então, olhe bem
essa exímia e perfeita retratação do Brasil que titia fez.

É isso, criança, posso ter conseguido fazer a inconveniência de nascer no primeiro dia do ano, mas a proeza maior, a de nascer em um local que não existe, é tua.

Logo, eu, que não sou doida nem nada, ao invés de ir para esse lugar que fantasmagórico, preferi muito mais esperar até a idade que você tivesse um vocabulário apropriado para que eu pudesse ligar todos os anos no seu dia, e celebrasse essa data do jeito que acredito que seja costume de parabenizar alguém no bom, velho e irreal Acre – telefonando e simulando uma crise de natureza ficcional.

Como por exemplo:
“Olá, querida, tudo bem? Ah, comigo também! Estou acompanhada desses homens simpáticos que carregam Uzis. Olha, só: liguei para desejar feliz aniversário bem rápido, porque pelo que entendi captando por alto a conversa num sotaque estranho deles, eles estão prestes a me jogar dentro de uma vã completamente preta, apagar minha memória, mudar meu nome para Opashnika e me coagir a entrar em um grupo de eco-terrorismo decente. Feliz aniversário, tudo de bom, se divirta muito, amo vooooooo...”

Seguido de muitos anos até que finalmente, na sua décima oitava primavera, eu -- dona de longos, digitadores e curiosos dedos -- pudesse te entregar essas histórias que escrevi sobre a verdade da vida, da nossa família e tudo mais.

Muito amor,
Tia Jana

P.S: se de alguma forma os seus pais acharam melhor a gente não se falar por eu nunca ter engolido essa onda de “Estado do Acre” e você não saiba quem está assinando, sou aquela que procede aos rumores de que o tempo não atinge os seios nem a maturidade e tal.

14 comentários:

Samantha Abreu disse...

pô,
o que seria de nós sem você?
quando tu me disse da tua idéia, eu sabia que ia ser da hora.
mas tu vem e arrasa.

Um beijO

Ale Bartelle disse...

Claro que tu não és doida.
Deliciosamente insana, isso sim!!!
Muito bom, muito bom mesmo. E se a tua sobrinha tiver puxado a ti??? Uma mini me...

Beijos

Marcos Satoru Kawanami disse...

Mãe-d'água Lisbon,

Eu também nunca vi o Acre, contudo tenho um amigo de infância que nasceu lá: o pintudo, digo, o pintor tetraplégico Artêmio. Mas, e o princípio da dúvida de Descartes? Artêmio nunca provou a existência do Acre só porque nasceu lá.

Todo o mundo aceita que o mundo brinca de ciranda-cirandinha, mas eu nunca participei de uma prova disso. Neguinho lê, e vai logo acreditando; é a ditadura da Ciência. Pélé, que nem cursou Astronomia ou mesmo Geografia, chegou até a compor uma canção intitulada "O Mundo é uma Bola"; tá, o mundo é uma bola, se fossem duas, seria um saco.

Agora, tua crônica está porreta. Parece até que foi um homem que escreveu.

Vamos aprofundar... Teu texto é, em si, a celebração da Arte pela Arte, talvez um Parnasianismo em prosa com o devido cuidado hodierno por aparar qualquer preciosismo livresco. Tenta-me, porém, lembrar Olavo Bilac, que não cria na existência do Estado de Goiás, e achava que esta unidade da Federação era mera invenção para eleger parlamentares.

Millôr Fernandes, que já passou dos 90 anos de idade, disse que o chato de envelhecer é que a gente não envelhece. Pois é, pelo visto o cacete dele resiste à Gravidade, conforme os teus seios. Ele, como eu, e eu como tu, seremos adolescentes boquirrotos a bem de nossa cutis, que a terra há de comer.

És tia, mas não fiques pra titia.

Já disse no teu blogue, e repito nesta privilegiada tribuna da democracia da tirania feminista: Para os Versos de Falópio, as minhas trompas de eustáquio são todo ouvidos.


=D
Marcos

Patrícia Boudakian disse...

que lindo! adorei e emocionei.
tem convite pro circo no meu blog, passe por lá! bjs

NiNah disse...

Adorei!
E esse mapa? Que tudo. Ri litros com o tal do nariz.
Parabéns =**
Bjo

Denise disse...

Me dá um autógrafo...?

jupyhollanda disse...

belíssima estréia, amiga!!!

e o Acre...rsrsrs existe sim. Meu Bisavô foi assassinado por lá (pelas costas) nos idos de 1910. Dizem que ele tinha um Canavial por lá. Foi briga de bar. aiai!

B-Juju

Marcos Satoru Kawanami disse...

"Conhecereis a verdade e ela te libertará."


no rótulo duma cachaça paraibana que minha mãe me deu (não sei por quê) quando eu tinha 15 anos:

PRECE DO CORNO
Senhor,
livrai-me de ser corno.
Se eu for,
que não me contem.
Se me contarem,
que eu não acredite.
Se eu acreditar,
que não seja verdade.
Se for verdade,
que eu não queira ver.
Se eu ver,
que não acredite.
Se eu acreditar,
que me conforme.
Amém!

Patrícia Lage disse...

A Helena é a mais nova sobrinha sortuda desse mundo. Bendita tia Jana!


lindona, início lindão!

Meus beijos.

Paulo Bono disse...

Acre? pobre Helena.
muito massa.

Natália Nunes disse...

eu acho Helena um nome muito bonito.

minha negra gata, eu não sei como vc consegue bolar umas coisas assim haha. adoro ;*

e sucesso para o blog!

Chantinon disse...

Olha a data... 11/09
Só tu mesmo para ser assim... terrorista. Começou eliminando o Acre.
Mas entendi, foi um ato ecológico.
Parabéns pelo belo começo.

Lorita disse...

Tinha que ser coisa de Sun!

Parabéns, guria!

Alexandre disse...

Bem legal o projeto. E como não poderia deixar de ser, belo texto. :)