terça-feira, 22 de setembro de 2009

Depois da Guerra, por Samantha Abreu


Depois da guerra, eu tento voltar a mim mesma.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.
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veja depois de ler:
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3 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

eu bem que tentei ingressar na Guerra, mas já não havia mais vaga pra Capelão nem Enfermeiro nem Telegrafista...


=D
marcos

Fábio disse...

É foda voltar e descobrir que o que você chamava de lar, não existe mais. Ou melhor existe mas quem mudou foi você. As coisas não encaixam mais, algo que é familiar e estranho ao mesmo tempo.
Gostei muito do texto. Esses pedaços que vamos acumalando e que vão nos modificando ao longo da vida. No fundo podemos ser um amontoado de pedaços que as vezes tem que ser reorganizados. Maneiro.

Abraços

Sunflower disse...

esse guerreiro também sou eu.