segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ele, por Juliana Hollanda




ele me fez rir. ele foi cruel. ele foi ácido e fez piada de mim por não acreditar na verdade ferina do meu amor por ele.
ele é menino. ele é franzino. ele é a mistura de um "Rolling Stone" com um cineasta problemático. ele é a metáfora. ele é o que não existe.
ele é a unanimidade que não veio. ele é alegre e despreocupado. ele é assustadoramente precipitado. ele me beijou como nenhum outro até hoje. nós nos amamos com entrega total sem pensar nas falhas e marcas dos nossos corpos já usados.
ele me fez feliz até quando não me dava a mão pra atravessar a rua.
ele me fez feliz quando reclamava da minha coca-light.
ele é inteligente. ele é culto e interessado. ele quer ser músico. ele toca guitarra sem saber as notas e ele toca bem. ele tem um bom ouvido e um gosto musical dos mais refinados.
ele é barulhento e tem a voz de trombone. ele é sensual e rouco. ele conseguia me fazer rir até nos seus momentos mais rabugentos quando reclamava as repetições de todo dia.
ele me olhava como nenhum outro olhou - seu olhar de adoração me cativou e me fez chorar por várias noites sozinha ao seu lado.
ele me deixava fazer o braço dele de travesseiro. nós dormíamos numa cama pequena e sem travesseiros. dividíamos a mesma toalha e, na primeira vez que fui a casa dele ganhei uma escova de dentes. ela ficou na pia até o nosso último adeus. ela continuou lá na nossa recaída de adolescente sem responsabilidade e está no lixo agora. ele a jogou lá.
agora, uma nova deve estar no lugar da já aposentada escova dental.
ele escolheu assim. ele preferiu me descartar como baralho velho amassado. ele sabia que eu me inspirava nele. ele fazia por onde.
ele foi meu por meses encantados. tivemos histórias e aventuras impensadas. nós riamos juntos como crianças na montanha russa. nós éramos nós mesmos. nós comíamos pipoca. nós comíamos chocolates. nós nos alimentávamos de suor, doce, amor e sal.
nós tínhamos tudo para ser mais um casal invisível, o problema é que nós aparecíamos muito juntos e isso, não estragou o amor, apenas afastou os corações.

2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

pois é, apareciam muito juntos, aí danou-se.

uma colega me disse que não se faz propaganda do que é bom.

Sunflower disse...

senhorita, senhorita... olhe, olhe, hein?