domingo, 20 de setembro de 2009

Entre Elas: Luiz Felipe Leprevost

Arfo e prossigo

Imagine a cena, querido, você está sentado, lê um romance, Proust. Usa óculos em decorrência do cansaço de horas e horas de leitura. E porque teus olhos já presenciaram horrores em demasia nessa vida. Digamos que teu aparelho de deslumbramento tá exausto. Na mesinha em frente, uma caneca de café, com florzinhas amarelas pintadas à mão na porcelana. Desculpa, estou exagerando. Posso te imaginar resmungando: Ela tá querendo me transformar num cara civilizado. Mas permita que eu prossiga. Entro vindo da rua. Agitada. Carrego sacolas, bolsa, guarda-chuva. Vou largando tudo no sofá. O guarda-chuva, coloco no lavabo. Você repara, mas não dá a mínima a minha entrada. Continua lendo. Começo a arrumar as compras. De tempos em tempos, olho pra você. Acendo o abajur, a tarde vai caindo mais aqui dentro que lá fora. A luz ilumina uma fotografia nossa à beira-mar, debaixo de um céu cinza de maio contrastando com o mar verde sem ondas. Então me posiciono na extremidade oposta àquela em que você está. Espero até que me olhe. E disparo: Eu tô cheia! Pânico mudo de tua parte. Disse “eu tô cheia!” e mais nada. Mas a frase, eu sei, continua se movimentando nas tuas entranhas, corroendo tua pacata almazinha de marido. Vou ao ponto nevrálgico: Sim, queridão, tô cheia feito um pote prestes a derramar seu líquido inflamável. Cheia de segredos. Segredos que não revelo por nada nesse mundo. Segredos que qualquer um teria nojo se eu revelasse. Tudo que sei é que você me atinge à queima-roupa. Quer meus olhos com açúcar e eu quero os teus. Você quer me bolinar, moldar minha carne. Só os tremendamente sensíveis conseguem te entender, eu não. Até aqui você não entendeu onde quero chegar. Por isso, continuo, como vocês homens dizem, surtada: Saiba, só os demasiado inocentes podem chamar um casamento tranquilo como o nosso de paz, eu não. Saiba, tua língua é acolchoada e tua respiração, de sal e coral, ou seja, traduzindo em fala de gente e não de intelectual, tua língua é uma droga, uma ameba, você, preciso dizer agora com todas as letras, não sabe chupar uma buceta. E tem mais, antes que me esqueça: odeio intelectuais. Sou professora de letras por falta de opção. Deus (sim, acredito em Deus, claro que você deve estar espantado, depois de todos esses anos crendo piamente que eu era como você, um nojento de um ateu, um ateuzinho de meia-tigela), mas Deus sabe, ah sabe, como odiei cada frase trocada com aqueles teus amigos insuportáveis, falando de um livro atrás do outro, achando que podem criticar resoluções políticas, com a empáfia de serem mais sábios que todos os filósofos, entendendo mais de direção de cinema que os ganhadores do Oscar. Me poupem, seus janotas de merda! É, você vivia vindo para cima de mim com versos, que absurdo, tenho muitos ainda decorados: “Você tem essa voz deitada / a me ensinar que somente os vivos / são capazes de perder a consciência”, o que é que alguém quer dizer com uma frase absurda como essa? Você era o rei declamador, oh quanta poesia em teu mundo. E eu: Aham, é, que lindo, amor. E tinha que meter a língua dentro pra você calar a boca. Querido, queridão, sei que basta um ato inconsequente para que eu provoque o sacrifício de alguém. E esse “alguém” sou eu mesma, ou é você? Se escolho entre dois amores, não sei se escolhi pelo amor de quem realmente amo, ou se escolhi pela morte do outro, a morte do desprezado. Qual de nós é o que se ferra nessa história, hein? O desprezo nunca será delicado, por mais que eu sorria, sorry. Por mais que também seja um luxuoso ato de amor o assassinato sem armas, sem sangue derramado, a morte que impede o prazer daquele que gostaria de me proporcionar o extremo. Poetas de fim de semana, que palhaçada. Sabe o que estou pensando agora? Que o desprezo é uma espécie de intimidade, assim como o segredo. E aí você se pergunta: O que será que ela quer dizer com tudo isso?, não seria mais fácil chegar aqui e falar que está tudo acabado entre nós? Não respondo o que quero. Não respondo nem que sim nem que não. Respondo que é “segredo”, hahaha, que hilário. Você agora está boquiaberto, né? Afinal sou uma mulher enlouquecida na tua frente. Enlouquecida, é verdade, ainda assim uma mulher que pensa. Tarde de mais pra você, quando resolve balbuciar alguma coisa, surpresa, continuo a catarse: Sabe por que guardo esses segredos? Porque tô na tentativa de desprezar nosso passado. É uma luta inglória, cê tá certa, mas sou cheia de esperanças. Sou ainda a burra de sempre, tentando em vão me olhar no espelho. Pois já não me reconheço mais no que vejo. O que salta dos olhos do meu reflexo são culpas de um passado sobre o qual a borracha do tempo ainda não agiu. Sabe de uma coisa? O problema de não esquecer é que a todo momento a gente lembra que existe algo a ser esquecido. Por isso, minha insistência é de ter lembranças, não esquecimentos. Eu te odeio e quero lembrar de você pra sempre, engraço, né? É que lembrando não esqueço que é preciso esquecer. E existe prazer nisso tudo. O mesmo prazer imbecil que você viveu encontrando em autores fedidos de metafísica. Viu o que você fez comigo, me dando essas imundices subjetivas pra ler? Hoje em dia tem momentos em que me distraio e, já viu, tô falando exatamente como um poeta xarope de quinta categoria. Objetivo, Rita, objetivo. Danem-se os objetivos. Tenho que falar, então agora vou falar do jeito que der, depois, no futuro, quando começar a me relacionar com pessoas práticas, quando estiver longe de professores de filosofia e chefes do departamento de letras, aí sim talvez possa desabafar com objetividade, por enquanto, vou falar como vier. Arfo e prossigo: Quer saber, existe prazer em meus segredos funcionarem feito um relógio quebrado. Os ponteiros sempre estão ali, parados no mesmo lugar. E eu a observar pela janela quando anoitece e quando de repente se faz novamente a manhã. Mas você, meu amorzinho, continua em silêncio. Você vive enclausurado no silêncio dos livros, vozes só dentro da cabeça, são as personagens. Fantasminhas de merda. E você, o leitor de sempre, esboçando um risinho estúpido de Monalisa pra elas. Quer saber, também não tenho nada mais a declarar, acabo de entender que essa profusão de sentimentos desarticulados não vai nos levar a lugar nenhum. Aliás, como sempre. Então vou pro quarto. Porque é obvio que você, o senhor leitor, prefere continuar me ignorando. No quarto, abro a última gaveta do armário, a emperrada, ela faz barulho, um barulhão, e o senhorzinho lá, só os olhos correndo da esquerda pra direita, virando a página do romance. Esse é um grande movimento, um esforço, não é mesmo? Sim, você tá no segundo parágrafo do último capítulo, ávido para seguir a história, quando meto um tiro no meu coração.
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Luiz Felipe Leprevost nasceu em Curitiba, é autor do livro/CD de poesia Fôlego (2002, edição do autor), e dos livros de bolso, de prosa poética, Tornozelos deitados e Cecília roendo unhas, ambos de 2005, pela Kafka Edições Baratas. Publicou o extenso poema Ode mundana (2006, Editora Medusa). Também em formato de bolso, o texto teatral Pífio, monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito (2007, Kafka Edições Baratas). Ainda, os contos de Inverno dentro dos tímpanos (2008, Kafka Edições) e Barras antipânico e barrinhas de cereal (2009, Editora Medusa). Também publica diariamente seus balbucios no blog http://www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com/.

2 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

li tudo, e olha que eu costumo ter preguiça na blogosfera: muito bom.

=D
marcos

Rachel disse...

Excelente.