domingo, 13 de setembro de 2009

Entre Elas: Marcelo Ariel

A SEDE

,desista: a regra secreta no olhar do tempo é esse instante de nuvem morta e transparente, como se fosse possível ler a voz de um desconhecido desintegrando-se diante do olhar que é a canção dentro do espaço de um nome e será um instante branco como a senha no rosto deste morto ou morta no interior de uma cela ou de uma floresta, desista porque o amor desiste

sobre a incidência que existe no que sobra de uma sombra que é doce desejo de estar fora. Delicada é a costura em ponto de cruz, atravessando o tecido deslembrado em que se perfura a agulha no revés permissivo do erro e fere o dedo — riscadura do momento entre — alinhavo de surpresas em bordas de fios que tramam uma fisgada no dedo, desista

o amor desiste enquanto há um medo em esbanjamento , enquanto há no espaço de um nome um segredo que nunca se revelará e — no enquanto — gargalha alto, engolindo a súplica do olhar apelidado de nuvem

é como se de mim tivesse chovido na idade do transbordamento
na agulha do tempo que estoura o balão de água

agora sou tudo o que racha, tudo o que fende e sinto um tipo novo de sede, sim, existe toda uma constelação de diferentes sedes dentro do corpo
estou sentindo o desejo controlável de enfiar a cabeça dentro do oceano e beber um grande gole de água salgada

estou possuída pela sede demoníaca, perto de mim, na cabeceira da cama, há um copo d’água com uma rosa vivendo nele. Como será sentir a sede da rosa em um copo vazio? saiu de mim a água que enchera o copo onde a rosa agora vive

e eu tão menor que ela , tão menos sublime

esvaziei-me para alimentá-la a fim de preferir sua vida menos maliciosa, menos consciente e por isso, com mais direito à existência, pertencendo onde me agarro com dentes amarelados e unhas já esfoladas. Sou o que eu persigo. Todo rudeza. Todo imobilidade

na verdade, transformo-me no copo vazio. Sou o que veio antes da água chegar e fui bebida num gole só
na verdade sei como é esta outra sede demoníaca porque estou morrendo mais rápido do que antes. Estou dentro de uma coisa chamada: ‘Paciente em estado crítico’ e essa coisa é como ser um copo para a terrível ausência de um campo de rosas vivas

Marcelo Ariel & Beatriz Bajo
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Marcelo Ariel, nascido em 1968, autor do livros “Me enterrem com a minha AR 15” (Dulcinéia Catadora, 2007); “Tratado dos Anjos Afogados (Letra Selvagem, 2008); “O Céu no Fundo do Mar” (Dulcinéia Catadora, 2009) e “Teatro Fantasma (no prelo).

Um comentário:

Sunflower disse...

copo, o meu, está sempre a metade vazio, de tanto que transpirou.

lindo isso.


beijas