domingo, 27 de setembro de 2009

Entre Elas: Paulo Castro

CHUVA - Fiapos de Água Captados por Tecido dos Desejos

1) Eu estava quase pegando no sono, ônibus ondulando serra, mãe que não mais nina décadas.
Foi quando a vi. Anos que não via. Pela janela. Pela chuva. Um adeus distante. Pelo escorrer larápio de certezas envidraçadas, mas eu as tinha. Um adeus de malas vermelhas em punho. Eu a tive um dia e perdi. Era ela mesmo, sim que era. Quase posso dizer a cor do batom que não escorria com a tempestade. Eu, no ônibus, ninado, quase pegando no sono. Minha querida silenciosa.
Desde então, a chuva não mais parou. Eu não mais dormi. E a lataria em chamas atestava que nenhum sobrevivente usava batom cor felicidade. Nenhum sobrevivente é nada.

2) Cheguei na casa dela, a praia cinza lá embaixo, bravia. Toquei a campanhia. Abriu ela mesma, enrolada em toalha, banho recém tomado. Demorou me reconhecer. Demorou acreditar. Me trouxe pra dentro, esquentou café, deu bolo, secou meu cabelo, ofereceu cigarro, "você fuma, não fuma?".
E antes que ousasse o primeiro beijo, peguei sua mão, abri a porta e a levei para a chuva. Então? Então o que mais, beijamos.


Paulo Castro é psiquiatra, escritor, roteirista, e mais um mundarel de coisa bacana. Tem publicado o livro 'O caso R', 2004. Paulo Castro é nosso homem de domingo com um charme especial de quem sabe o que diz.
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Veja um dos textos do Paulo aqui, por Samantha Abreu:
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